quinta-feira, 31 de julho de 2014

29º Capitulo - « só tu é que não vês…ou não queres ver! »


- Eu não sei, ainda não abri a carta. – respondeu deixando-me ainda mais nervosa.
- Abre lá isso, Stephan – supliquei.
- Mas…eu tenho medo – não esperava que ele dissesse tal coisa – não és a única a não saber lidar com isto, eu também não sei e sinto-me assustado com isto tudo.
- Abre, é a única maneira de acabar, ou não, com este sofrimento.
- Rita…antes promete-me que ficas ao meu lado independentemente do resultado.
- Eu…eu não consigo prometer-te isso – fui sincera, completamente sincera com ele.
- Rita…? – admirado era como estava provavelmente mas eu não conseguia prometer-lhe tal coisa neste momento.
- Caramba Stephan! Se esse miúdo for mesmo teu filho as coisas vão mudar drasticamente e eu não sei se consigo acompanhar tal mudança, por isso o melhor que tens a fazer é abrir isso, ver o resultado e só depois te conseguirei prometer ou não tal coisa.
- Eu vou abrir.
Aqueles segundos devem ter sido até hoje os mais ruins, sentia-me a morrer por dentro. Não ouvia a voz do Stephan apenas a sua respiração que de calma não tinha nada.
- Não… - sussurrou – eu…ainda não sou pai.
Desiludido? Estaria ele desiludido com os resultados daquele teste? A voz dele era estranha, e pouca felicidade havia nela.
Não me dignei a dizer uma palavra sequer, não conseguia…estava chocada? Seria a palavra certa? Sentia-me incapaz de reagir e perguntei-me a mim mesma, se ele fosse mesmo o pai daquela criança se eu reagiria da mesma maneira.
Mas…tudo parecia simples. O Stephan não é o pai daquela criança agora tudo podia voltar ao normal mas não é isso que sinto. Há algo que mudou. A nossa relação parece já não ser a mesma e eu encontro uma razão para isto tudo. Talvez a nossa relação nunca tenha sido tão forte assim, se calhar as declarações nunca passaram de…declarações sem sentimento e a nossa relação não tenha passado de…uma relação sem amor.
- Rita? – a voz dele tirou-me todos os pensamentos e levou-me de volta àquele momento – estás bem?
Essa é uma pergunta curiosa. O que é estar bem? Se estar bem é estar feliz…eu não estou, se estar bem é sentir-se segura eu não estou mesmo nada bem…mas se estar bem é conseguir demonstrar felicidade sem a sentir, sim eu estou bem.
- Tu…estás bem? – não me apetecia responder àquela pergunta e fazê-la a ele pareceu-me o mais adequado na altura.
- Sim, eu estou bem. – sentia-me presa, num túnel escuro onde caminhava e nunca mais encontrava luz – sinto-te distante – agora podia ouvir uma voz preocupada, teria ele medo de me perder?
- Não…eu tenho o meu irmão à minha espera e tenho que ir, falamos outro dia.
- Sim, falamos – se ele o dissesse eu não iria conseguir retribuir-lhe tal coisa, não agora – eu… - ele ia dizer e eu não iria conseguir ouvir – eu amo…
Afastei o telemóvel de mim desligando a chamada. Não me sentia bem por lhe fazer tal coisa mas não conseguia reagir de outra forma a tudo isto. Nós não escolhemos as nossas reações…apenas as temos e muitas das vezes nem sabemos porquê.



Algumas semanas passaram.
Os pequenos círculos, que fazia com a minha unha, na mesa da esplanada era a única coisa que me fazia abstrair dos problemas, dos pensamentos…do mundo. Ouvi o barulho de o arrastar de uma cadeira e olhei para a minha frente vendo o Filipe.
- Olá! – disse animado sentando-se à minha frente – já reparaste no céu? – olhei-o a primeira vez hoje e voltei a dirigir o meu olhar para o Filipe – parece que ainda vai chover hoje.
- É bem capaz – respondi voltando à pequena brincadeira entre a minha unha e a mesa.
- Então? – falou despertando a minha atenção – fala-me da tua vida cá em Coimbra. Tens namorado? – olhei-o com uma certa vontade de me rir. – não, não é nada do que estás para aí a pensar.
- Eu não estou a pensar nada.
- Estás sim!
- Tenho namorado sim.
- É o Rafael, não é?
Agora sim, ri-me e bastante. Devia ser das primeiras gargalhadas que dava hoje, senão a primeira.
- Tem assim tanta piada? Ele fuzilava-me com o olhar e eu sempre soube que ele não gostava nada de mim, por namorar contigo claro.
- Ele sempre foi muito protetor comigo…e tu sabes disso. É o melhor amigo do meu irmão e sempre me viu como…nem eu sei bem o quê – admiti acabando por me rir.
- Esse não sei bem o quê é: a princesa dos meus sonhos. O Rafael sempre foi apaixonado por ti.
- E pelas outras todas – gozei – ele é daqueles que tem a fama e o proveito.
- Ele é bom rapaz e tu que o digas…
- Nem comento essa provocação. – olhei para ele rindo-me – e tu?
- Eu…tenho uma namorada que é: loira, alta e de olhos azuis.
- Voltaste à fase dos amigos imaginários?
- Quase. – disse rindo-se – eu não tenho namorada apenas semi-namorada.
- O que é uma semi-namorada? – perguntei usando o termo que ele próprio tinha utilizado.
- É aquela cena onde há uma género de namoro mas não há nomes para a coisa.
- Ah, acho que já entendi – disse continuando-me a rir – és comprometido de vez em quando e solteiro quando te convém?
- É isso mesmo, amiga! Olha por falar no rapaz ali vem ele – virei-me para trás e verifiquei que o Rafael caminhava em direção a nós – e acho que vem em direção a ti.
Medo, começava a ficar com medo do que podia vir ele fazer aqui.
- Falei com o teu irmão – atirou quando chegou junto a mim – o italiano tem um filho ou seja andou para aí a fazer filhos sabe-se lá a onde e tu continuas com ele?
Isto não me podia estar a acontecer.


- Não tinhas o direito! – atirei abrindo a porta de casa – não tinhas! – voltei a repetir, estava alterada, bastante até.
- Mas…é verdade! – o Rafael também entrou em casa e eu acabei por fechar a porta excedendo na força. Àquela hora não estava ninguém em casa por isso deixei-me levar pela raiva que sentia.
- Não é verdade! Não é! E mesmo que fosse tu não tinhas o direito de o julgar, nem tens! Ele é meu namorado e não devias ter falado assim dele…muito menos em frente ao Filipe!
- Rita! – agarrou-me o braço fazendo com que eu parasse de andar de um lado para o outro. Chegou mais perto de mim e agarrou-me os pulsos, bem que me tentava soltar mas a força que exercia sobre mim era grande. Olhei-o finalmente com alguma raiva ainda. Aproximou aos poucos o seu rosto do meu, desviei a minha cara da dele e ouvi o seu suspiro. – só tu é que não vês…ou não queres ver! – atirou largando os meus pulsos de uma forma grosseira. 
- Não quero ver o quê?
- O mal que ele te faz.
- Eu não tenho 10 anos! Eu sei cuidar de mim.
- Tens 18 anos e andas completamente cega por ele.
- Incomoda-te? – perguntei num tom desafiador.
- Incomoda sim! E muito, até. Sei que gostas dele mas abre os olhos e pensa duas vezes antes de te enfiares na cama com ele.
- É esse o teu problema? Que me enfie na cama com ele?
- Chega…Rita o meu problema é que sofras…se já não estás a sofrer, não é? Não quero que sofras como da última vez. Doeu, deixar de ver a Rita que eu conhecia por causa daquele…anormal!
- Eu sei muito bem o que passei, escusas de me lembrar.
- Não sejas assim comigo… - falou passando os seus dedos pelo meu rosto – sei bem que és frágil e que não aguentas muito do que pensas que és capaz de suportar. Eu gosto de ti miúda, ver-te mal é coisa que não quero.
- Rafael…sai por favor – pedi.
- Se precisares de mim…tu sabes bem onde me encontrar, eu estou aqui para ti.
- Sim e obrigada por isso.
Acabou por sair de casa e a primeira coisa que fiz depois de ele sair foi ir para o meu quarto. Deitei-me na cama, havia tantas coisas que não faziam sentido. Havia tantos rapazes na minha vida e eu sem saber lidar com nenhum.

O Rafael – Conheço-o desde sempre. Pelo menos desde que me lembro que ele está na minha vida. Era o nosso vizinho da frente. Como filho único acho que sempre viu o Salvador como um irmão, talvez até por só terem um ano de diferença. Não vou mentir, quando era mais nova achava-lhe uma certa piada e o facto de passar a vida lá em casa ajudava bastante. Temos cinco anos de diferença e agora com 23 anos anda controlador, nunca o tinha visto assim. O Rafael terá sempre um lugar no meu coração, por mais que os anos passem o Rafael será sempre…ele, o primeiro de todos. A primeira vez que me entreguei a alguém foi o Rafael, tinha 16 anos e recordo aquele momento com um sorriso na cara, não me arrependo de nada, era pelo Rafael que eu morria de amores na altura. Nunca chegamos a namorar nem coisa parecida, apenas tivemos os nossos momentos. O facto de ele me proteger tanto faz-me acreditar que ele me vê como uma irmã e que aquele momento também foi importante para ele.

O Filipe – Custa-me lembrar-me de tudo, na verdade, mas sei que o que passei nas mãos dele me ajudou a crescer e a ser o que sou hoje. Prefiro lembrar-me do Filipe no início, nas boas coisas da nossa relação e esquecer as más. Agora começo a conhecer um novo Filipe e pretendo começar uma nova amizade com ele porque acredito que toda a gente merece uma segunda oportunidade.

O Stephan – Apesar de agora eu achar que a nossa relação está um pouco perdida, sinto que só com ele posso ser feliz. Só com ele me sinto completa e só com ele me consigo sentir verdadeira. Na próxima segunda-feira fazemos um ano de namoro. Um ano que não foi, nem é, fácil de viver. Um ano em que uma chamada faz diferença e que um amo-te muda um dia de mau a bom. As lágrimas aparecem e por vezes nem sei bem porquê, a saudade é tanta que por vezes parece que me sufoca e me mata aos poucos. O assunto da criança que podia ser (mas felizmente não é) filho do Stephan, abalou a nossa relação e não foi pouco. Sinto-me mal por não lhe contar do Juan mas sei que podia trazer mais problemas e isso, nós não precisamos mais. Sei que é ele que eu amo mesmo que por vezes me sinta confusa e pense que a nossa relação não tem amor, lá no fundo sei que há bastante amor no nosso namoro e que nos conseguimos amar um ao outro de uma forma incondicional.

O Juan – Não sei lidar com ele. Não sinto qualquer tipo de atração por ele e apesar de algumas atitudes dele que me deixam menos confortável, como aquelas aproximações estranhas, ele é bom rapaz e não se sente atraído por mim. Até porque no outro dia contou-me que havia alguém, o que me deixou aliviada. De uma forma geral, damo-nos como irmãos e eu vejo nele um irmão de verdade, já que tenho os meus dois longe de mim.

Acabei por me agarrar à minha almofada e fechei os olhos tentando abstrair-me de tudo e desejei que amanhã quando acordasse tudo me parecesse mais nítido e mais fácil.



Acordei com o despertador a tocar, quando estiquei a mão para o conseguir desligar deparei-me com um pequeno papel em cima da mesa-de-cabeceira. Acendi a luz do candeeiro e demorei ainda algum tempo a conseguir ver tudo direito. Quando me senti totalmente acordada peguei naquele papel, que agora não me pareceu assim tão pequeno, e comecei a ler.

Rita,
Ontem quando cheguei a casa estavas a dormir e tanto eu como a tua tia decidimos não te acordar. Estavas com uma carinha triste, espero que esteja tudo bem.
Ontem recebi a notícia que a minha avó está mal, eu já te tinha falado sobre ela. Apesar de ter alzheimer e não me reconhecer sinto-me na obrigação de ir lá, foi ela quem me criou e mais me ajudou na separação dos meus pais. Fui para a Corunha e não sei quando volto. Antes do fim-se-semana não devo estar cá.
Beijinhos,
Juan

P.S. – obrigada, tens sido a irmã que nunca tive.

Li novamente aquele bilhete para ter a certeza do que lia. Ele tinha ido para Espanha por causa da avó mas…logo agora que eu ia precisar tanto dele mas por outro lado entendia-o, as avós são sempre as nossas segundas mães. E além do mais foi a avó que o criou desde pequeno. Só queria sexta feira à tarde, queria um fim-de-semana sossegado, sem viagens nem coisa parecida.



- Sabes que mais? Podíamos muito bem fazer um piquenique este fim-de-semana! – a Vera falava comigo enquanto fazíamos o caminho até casa da minha tia.
- Sim, claro bombom. Já te esqueceste que estamos em Novembro e está frio? Só se quiseres levar umas mantas.
- Pois é…nunca mais chega o Verão.
- Ainda nem o Inverno chegou, Vera.
- O que é que fazemos este fim-de-semana?
- Por mim hibernava como os ursos durante o fim-de-semana inteiro.
- Andas tão seca. Estás a precisar de diversão.
- Estou…devíamos começar a trabalhar na entrevista que temos que fazer.
- Isso não é nada divertido, Rita…mas bem quem é que vais entrevistar?
- Não sei, a minha tia ou o Juan.
- Bem que podias entrevistar o Rafael, ele é giro!
- É…lindo. Porque não o entrevistas tu?
- Nunca falei com ele na vida.
- Eu arranjo maneira…só se quiseres claro.
- Tenho medo…
- Tu? Medo? Deixa-me rir… - cheguei a casa e entrei no portão – adeus Vera.
- Adeus fofa, saímos hoje?
- Amanhã…hoje quero dormir.
- Sim mãezinha, vai dormir sim. Às nove e meia é hora de ir para a cama.
- Goza… - disse antes de abrir a porta e lhe acenar.
Entrei em casa, pousei as chaves na mesa e fui até ao meu quarto deitando-me.
O som da porta despertou-me. Era estranho, quem poderia ser a esta hora? O Juan não estava cá e a minha tia tinha a chave. Levantei-me e descalça fui até à porta abrindo-a.
- Stephan… - sussurrei quando a abri. Não podia acreditar que era mesmo ele que estava aqui. Agradeci mentalmente o facto de o Juan não estar aqui em Portugal. Podia ter várias reações, abraça-lo, beijá-lo ou até saltar para o seu colo mas nada me parecia adequado, só podia fazer uma coisa – o que estás aqui a fazer? – era a pergunta que eu tinha que fazer.
- Tu…esqueceste-te? Segunda feira fazemos um ano. – claro que não me esqueci, não tenho pensado noutra coisa ultimamente.
- Não, não me esqueci mas…anda cá – agarrei a mão dele e puxei-o para dentro de casa fechando a porta. Sentei-me no sofá com as pernas cruzadas e ele ficou ao meu lado – ouve, eu ando meia confusa.
- Confusa com o quê?
- Tudo. – agarrei as suas mãos, tinha saudades daquele toque e daquele segurança – isto tudo abalou-nos tanto, parece que já não somos os mesmos.
- E não somos. Crescemos Rita, crescemos bastante durante este ano e somos diferentes agora mas eu não te amo menos, amo mais ainda.
 - Tenho medo…
- De quê, fofinha?
- De tudo…que isto acabe sem nós nos apercebermos, sem conseguirmos travar o nosso fim.
- Isso não vai acontecer – assegurou-me agarrando-me as mãos – na nossa relação fim é uma palavra que não existe.
- Dizes isso de uma forma tão…segura.
- Tu é que estás toda estranha…estás insegura. Passou-se alguma coisa que eu não saiba?
- Não, não se passou nada de mais. – levantei-me do sofá – espera um pouco.
Fui até ao meu quarto buscar a caixa que tinha guardada no canto do quarto. Voltei à sala já com um sorriso na cara, esquecendo tudo com vontade de viver o momento.
- Eu tenho uma prenda pra ti bonita. – disse entregando-lhe a caixa – mas espera – disse colocando as minhas mãos em cima das suas impedindo que abrisse agora – antes de abrires quero que te lembres que…eu amo-te e que posso ter andado a ser muito parva e tenho estado distante de ti mas…eu estou aqui, e esse pé vai ficar bom depressa e vais voltar a jogar num instante.
Retirei as minhas mãos de cima das suas. Esperava que ele não levasse a mal o presente que tinha para ele, acho qualquer jogador iria gostar de receber chuteiras mas não sei se é o seu caso já que está lesionado.
Abriu e virou para mim o lado que tinha Ste & Abriu e virou para mim o lado que tinha Ste & Rita gravado. Já as tinha há algum tempo na minha posse mas dar-lhe ainda não tinha tido ‘’coragem’’.
- Gostas?
- Claro que sim! – pousou as coisas no sofá e chegou mais perto de mim, fez-me uma pequena caricia no rosto para depois juntar os seus lábios aos meus. Era a primeira vez hoje e a primeira vez também este mês. Tinha saudades de verdade – obrigada – sussurrou depois de separar os seus lábios dos meus.
Continuou perto de mim sem se afastar muito. Conseguia sentir a sua respiração. Sorriu como há muito não o fazia e foi como se eu me apaixonasse novamente por ele.
- Tinha saudades tuas – sussurrei encostando a minha testa à dele.
- És tão parva minha doida. – podia ter barafustado pelo facto de me ter insultado mas não me dignei a dizer uma palavra. Sentia-me demasiado leve, entregue a ele, neste momento não tinha qualquer preocupação.
Colocou a sua mão no meu rosto fazendo-a descer levemente. Enquanto os seus dedos percorriam o meu pescoço sentia-me a arrepiar, a tremer por todos os lados. Não era de todo a primeira vez que ele me tocava mas é como se fosse. O medo instalava-se em mim, o que se iria passar a seguir?
As suas mãos instalaram-se no fundo das minhas costas e vagarosamente encontraram a minha pele causando assim mais uma serie de arrepios em mim. Parei as suas mãos e agarrei-as. Levantei-me do sofá fazendo com que ele fizesse o mesmo e caminhei até ao quarto. Por estas horas ninguém estava em casa nem iria estar.
Chegando ao quarto tudo decorre normalmente. As roupas voaram e o desejo aumentou gradualmente. O meu corpo uniu-se com o dele numa combinação perfeita. Tudo parecia perfeito, parecia que tudo tinha voltado ao normal mas houve algo que não foi igual.
No fim ao contrário de todas as outras vezes que tínhamos feito amor sentia-me incompleta, sentia um vazio que nunca antes tinha sentido, não com ele. Deixei escapar uma lágrima, algo não estava bem.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

28º Capitulo - « Rita…não me faças isto princesa! »

- Bom dia. – saudei ao chegar à cozinha.
- Bom dia! – responderam em conjunto o Salvador e a Francesca.
Sentei-me à mesa e reparei que estavam os dois com os olhos postos em mim.
- Estás bem miúda? – perguntou o Salvador dando-me uma leve chapada no braço.
- Porque não haveria de estar?
- Se calhar porque vieste cá para estar com o teu namorado e não estás.
- O meu namorado tem agora um filho para cuidar.
- Estás grávida? – este Salvador tem com cada pergunta mais estúpida.
- Não, não estou. Alguém ficou por mim. – atirei.
- O quê? O que dizes tu? – perguntou olhando para mim sério.
- Salvador…ontem à noite apareceu uma rapariga quando eu estava com o Stephan e ela disse que era a mãe do filho dele e porra! Porque é que tinha que vir alguma coisa estragar a minha felicidade? – já guardava há tempo demais aquilo só para mim e agora tinha dito tudo ao Salvador com a Francesca ali também presente.
O Salvador chegou-se mais perto de mim fazendo com que a minha cabeça embatesse no sue peito, acariciou-me o cabelo e sussurrou numa voz doce:
- Tudo vai ficar bem pequena…vais ver que não passa tudo de um mal entendido. – afastou-se de mim e eu limpei  as lágrimas que já me escorriam pelo rosto – e se essa criança for mesmo dele? Tu…aceitas?
- Não sei – levantei-me da cadeira percorrendo a cozinha a um passo acelerado – eu não sei…quer dizer…um filho não é um boneco não é? É uma responsabilidade para o Stephan, é algo que lhe pertence, algo que faz parte dele e…eu tenho medo…eu tenho tanto medo. Eu não sei como lidar com isto.
- Nós estamos aqui – assegurou a Francesca agarrando-me a mão – mas…Ritinha tens voo daqui a poucas horas.
- Pois é… - levantei-me da cadeira – eu vou-me preparar…Portugal espera-me.


- Fofinha? – aquela voz…não me mexi sequer, apenas continuei a olhar as pessoas que andavam de um lado para o outro naquele aeroporto – Rita…não me faças isto princesa!
Tocou-me no braço e virei-me para trás, mirei os olhos dele. Não eram os olhos do meu Stephan, eram uns olhos diferentes que me faziam arrepiar, cheios de mágoa, arrependimento e sobretudo tristeza. Sentia que ele precisava do meu abraço tanto ou mais quanto eu precisava do dele. Atirei-me para os braços dele. Aquele cheiro…eu já tinha saudades daquele cheiro.
- Desculpa, desculpa, desculpa – repetia vezes sem conta a mesma palavra enquanto me beijava a testa – eu magoei-te e nunca foi minha intensão faze-lo, eu desiludi-te…
- Não Stephan – interrompi-o, não podia continuar a culpar-se de algo que não fez com intenção – não digas nada por favor, ouve apenas…
Foi-nos audível o chamamento para o meu voo, tinha que ser rápida, tinha que lhe dizer tudo o que sentia em poucas palavras. O Salvador e a Francesca já tinham ido embora já há algum tempo. Apenas eu e ele permanecíamos ali.
- Sei que nunca me quiseste magoar e sei que não sabias da existência dessa criança, eu entendo ou melhor…eu tento entender mas torna-se complicado para mim. Tenho 18 anos…há ainda circunstâncias na vida com as quais eu não sei lidar e o meu namorado ter um filho é uma delas. Eu tenho que ir…Portugal espera-me e Stephan, meu amor, se aquele filho for mesmo teu, a tua obrigação é assumi-lo, fazer dele a criança mais amada e feliz do mundo porque desde o início que sei que darás um ótimo pai…e eu prometo que nesse caso vou tentar entender…tentar viver com isso no meu dia-a-dia, é tudo apenas uma questão de me habituar. Eu tenho de ir e…eu amo-te fofinho.
- Também te amo. – disse unindo por fim os nossos lábios num beijo calmo e já com alguma saudade.




Deve ser das primeiras vezes que volto a Portugal e me sinto aliviada com isso. Voltar a casa é sem dúvida…bom.
Voltar à faculdade e conseguir distrair-me de tudo ainda foi melhor. Mantive o computador desligado durante alguns dias porque achei impossível conseguir falar com ele, sentia-me estranha, sentia-me perdida. Seria o fim?

A semana tinha terminado e este fim-de-semana ia até Setúbal, precisava de estar com o Afonso e os meus pais, precisava da minha cama. Precisava de matar saudades de tudo.
Era sexta-feira e estava num dos parques de Coimbra, a Ana e a Vera tinham estado comigo a rever um trabalho. Tinham acabado de se ir embora há uns minutos quando alguém se senta junto a mim. Olhei para o lado e não podia acreditar no que via.
A lembrança da última conversa invadiu-me o pensamento.


Começamos a caminhar, um pouco sem destino. De repente alguém me agarra o braço o que faz olhar para trás.
Era ele…nesse momento tudo me passou a frente, todo o ano, todos os momentos, todo o sangue…O que eu mais temia…era ele, voltar a vê-lo.
Como é que um sentimento tão bonito como o amor pode virar odio? Porque a verdade é que eu odeio aquele rapaz.
No momento e que o vi voltei ao passado, a minha vida andou para trás como se fosse a coisa mais normal do mundo. Via-me ali com ele, com o rapaz que me fez destruir a minha vida em segundos.
Explodi, estava na hora de falar, na hora de lhe dizer tudo o que sempre lhe quis dizer mas nunca tive coragem.
- Não tens vergonha na cara? – Continuava-me a agarrar o braço – fazes o favor de me largar? Não sou a rapariga que conheces-te em tempos, tenho muito gosto de te dar uma chapada se for preciso!
- Não sejas bruta, nunca o foste.       
- Eh pá oh Filipe, menos rapaz, não és o centro do mundo! Não te ponhas a falar como se ainda fossemos amigos, já nem digo namorados não é?
- Não vejo porque não! Sei que ainda me amas.
- Tu? A única coisa que tu sabes é gozar com as pessoas! Mas podes bem sair daqui porque comigo já não pega! Amar? Quando descobrires o que é realmente amar…esquece tu nunca vais descobrir, porque para saber o que é amar, é preciso, muita coisa! Uma delas é respeitar uma coisa que tu não sabes nem nunca soubeste fazer.
E nem penses em falar, porque da tua boca não quero ouvir mais nada! Tu na minha vida? És passado, apenas passado e nada mais que passado. E sabes uma coisa? O esforço foi pouco! Eu sei que tentas-te destruir a minha vida, eu sei que sim, mas não é que eu tenho uma vida fantástica? Melhor que a que tinha antes de te conhecer. Obrigada, sabes eu agradeço-te! Porque fizeste-me crescer! Fizeste-me ver que a vida não é um mar de rosas, e que há muitos cabrões que gostam de estragar a vida ás pessoas. Graças a ti, sou uma pessoa muito melhor. Comigo ninguém brinca, e tu muito menos! Agora se queres um conselho? Ninguém te curte, e tens muito que aprender na vida! Cresce…e desaparece!

- Olá. – disse calmo. Não me cumprimentava com ironia, apenas me cumprimentava.
- Olá. – pela primeira vez, sentia-me calma a falar com ele. Não me sentia com vontade de fugir, estava a ser tudo normal.
- Não vais fugir?
- Não – sorri um pouco, ele conhecia-me…ainda.
- Voltaste para cá? Há uns dias vi-te passar por aí.
- Sim, decidi fazer aqui a faculdade.
- E está a correr bem?
- Sim. – respondi calmamente, olhei para ele a segunda vez desde que se sentou ali. – e tu? – tinha uma certa curiosidade em saber o que tinha feito ele da vida.
- Consegui entrar bioquímica – claro que conseguiu, ele nunca foi mau aluno, muito pelo contrário era dos melhores alunos no curso dele. – eu mudei – a frase típica… - e falo a verdade, não digo isto da boca para fora. Sair do secundário fez-me bem e estar agora na universidade e conhecer novas pessoas…
- Fez-te crescer… - completei – há muito que precisavas disso…de crescer e também de te livrares de certa gente do secundário.
- Podemos…
- Combinar qualquer coisa? – eu conhecia-o e era isso que ele ia perguntar. Sorriu para depois continuar o seu raciocínio.
- Sim, combinarmos algo eu queria-te apresentar alguém. – virou-se para mim e agarrou-me a mão, não me afastei nem nada parecido, senti-a que agora podia confiar nele – Sei que te fiz muito mal Rita e peço-te desculpa por isso mas tu foste muito importante na minha vida e sempre o serás.
- Vou este fim-de-semana para Setúbal, quando voltar podemos combinar algo. – larguei a mão dele e levantei-me do banco – agora eu tenho que me ir embora, que ainda me vou embora esta noite.
- Adeus – disse-me.
- Adeus – retribui-lhe um sorriso e comecei a caminhar para fora do parque.
- Rita? – chamou-me. Olhei para trás esperando algo da parte dele – obrigada.
- De nada…Filipe. – falei começando depois a fazer o meu caminho até casa.
Sentia-me bem, estranhamente bem. Não tinha remorsos ou coisa do género. Consegui manter uma conversa com o meu ex-namorado quase um ano depois da última conversa e notei o quanto ele estava diferente. Foi sem dúvida uma boa conversa.
Cheguei a casa e chamei pela minha tia, não obtive resposta provavelmente não estava em casa. Fui até ao meu quarto começando a ver a roupa que iria levar.
- Rita? – era a voz do Juan tinha acabado de chegar a casa provavelmente.
- Sim? Estou no quarto!
Poucos segundos depois ele entrou no quarto e sentou-se ao fundo da minha cama, estava animado. Tinha um sorriso lindo na cara que parecia contagiar.
- Sim… - disse esperando que ele me contasse alguma coisa.
- Tenho duas novidades!
- Que são…
- Mira, yo no sé…es que…
- Fala! – pedi.
- Há alguém
- Isso é bom! – disse animada. Era bom sinal ele encontrar aqui alguém com quem pudesse partilhar as suas coisas.
- Não sei se é.
- Estás a começar a assustar-me – larguei a roupa que arrumava e sentei-me ao pé dele – porque é que não é bom?
- Ela tem namorado.
- Oh meu Deus! Com tanta rapariga por aí, tu apaixonaste por uma que tem namorado.
- Mas ela quer…
- Ela quer? se ela quer porque é que tem namorado, afinal? e tu queres? – perguntei depois.
- Sim.
- Então são dois a querer.
- Não sei o que fazer, Rita.
- Não faças nada…não por agora. O que tiver que ser…será. – levantei-me novamente da cama para ir acabar de fazer a mala.
- Estás bem, tu?
- Vou indo…
- Com as duas pernas, não é? – perguntou levando-me a sorrir.
- É. – respondi sem grandes vontades de falar no meu estado.
- Boa viagem! – disse dando-me um beijo na bochecha sem eu esperar.
- Gracias. – disse tentando imitá-lo.
Riu-se e saiu do quarto deixando-me novamente sozinha.


- Olhem quem chegou! – disse o meu pai abrindo a porta permitindo-me entrar em primeiro lugar.
A minha mãe e o meu irmão estavam sentados no sofá mas foi a Leci quem em primeiro chegou até mim.
- Leci – sussurrei enquanto me baixava para ficar ao seu nível. A festa que fazia era imensa por me ver ali, os cães são mesmo os melhores amigos do Homem.
- Olha esta! Liga primeiro à cadela do que à família. – barafustou o Afonso.
- Oh, anda aqui à mana – abri os meus braços e dei alguns passos em direção a ele – meu irmão ciumento que até da cadela tem ciúmes.
Cumprimentei a minha mãe para depois ir colocar as coisas no meu quarto voltando depois à sala.
- Nós vamo-nos deitar – informou a minha mãe referindo-se a ela e ao meu pai.
- Vocês não se deitem muito tarde! – avisou o meu pai.
- Não…lá para as três da manhã. – disse o meu irmão baixo levando-me a rir. Que saudades tinha eu do meu pequeno.
- Conta-me coisas Afonso! Com estão a correr as aulas e o resto?
- Vai tudo numa boa…
- Vai tudo numa boa…- disse imitando-o – mas está tudo bem, certo?
- Sim…sentimos a tua falta aqui como podes imaginar.
- Eu também sinto a vossa, de verdade.
A Leci subiu para o sofá onde nós estávamos deitando-se nas minhas pernas.
- Ela também tinha saudades tuas…
- E eu dela e vossas.
O toque do meu telemóvel despertou-me, olhei para o visor e…o Stephan. O que é que eu ia fazer agora?
Desde a semana passada que mal nos falamos, evito-o ao máximo. Não por mal, apenas porque não consigo lidar com a ideia de ele puder ser pai. Tenho mantido o computador desligado, evitando assim as videochamadas e as conversas que temos quando me liga são curtas e secas.
- Afonso…atende por favor – pedi entregando-lhe o telemóvel – diz que estou no banho ou inventa qualquer coisa…eu não estou com vontade de falar com ele.
- Não. – disse devolvendo-me o telemóvel.
- Não?
- Não Rita, eu não vou fazer isso! És tu quem tens que falar com ele. Não o podes evitar para toda a vida.
- Porque não…? – perguntei suspirando.
O telemóvel deixou de tocar e senti-me aliviada.
- Ele vai ligar outra vez e tu tens que prometer que vais atender.
- Afonso…isto não é uma brincadeira de crianças…
- Mas tu estás a agir como uma criança! Estás a fugir aos problemas e tu não és assim…podes não ter vontade de falar com ele mas ele merece o teu respeito, entendes? Ele não fez nada de mal, pode ter feito há mais de nove meses mas não agora…ele não tem culpa que agora apareça uma maluca qualquer a dizer que tem um filho dele, ele não escolheu acontecer isso.
- Sim…se calhar até tens razão.
- Não é se calhar é mesmo. Eu tenho razão.
- Mas…Afonos, como sabes tu isso?
- Há uns dias falei com o Salvador, ele contou-me.
- Os pais…?
- Não, eles não sabem de nada.
- Ainda bem – disse mais aliviada. Se os meus pais soubessem não sei como as coisas iriam correr.
O meu telemóvel começou novamente a tocar, o Afonso olhou-me com cara séria. Era agora…eu tinha que falar com ele.
Levantei-me do sofá da sala indo até ao meu quarto. Deitei-me na cama e atendi a chamada.
- Rita… – falou baixo, como se suplicando que eu lhe falasse.
- Olá – saudei sem muito animo.
- Porque é que me andas a evitar…Rita?
- Eu não… - não, não lhe iria mentir – sim, ando a evitar-te e a razão tu deves saber bem qual é…
- Vieram os resultados do teste de paternidade…hoje.
- E vais-me dizer se és ou não o pai daquela criança? – o nervosismo começava a aumentar e começava também a sentir uma pequena impressão na barriga e o Stephan nunca mais me dava aquela maldita resposta.



__________________________________________________________________


Boa noite (:
Aqui está mais um capítulo.
Espero que as vossas férias estejam a correr bem!
Espreitem a Be my forever – capitulo 2 , estou a precisar imenso das vossas opiniões. 
E também as espero aqui neste capitulo.
Beijos,
Mahina ღ