sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

38º Capitulo - « Sabes que o amor às vezes nos leva a fazer escolhas menos acertadas (...) »

- Stephan – virei-me na cama e coloquei as minhas mãos no seu rosto – o Matteo acordou – anunciei ainda com uma voz sonolenta.
- Rita – avançou um pouco na minha direção e beijou-me a testa – é a tua vez de o ires buscar.
- Ontem fui lá eu quando acordou.
- Meu amor, foste lá tu porque eu não estava cá.
- Stephan… - fechou os olhos e percebi que tinha perdido desta vez.
Levantei-me vagarosamente e comecei a preparar-me para o dia que me esperava.

Maio tinha chegado e não podia estar a correr melhor. Estas três semanas que passaram desde a chegada do Matteo tinham sido de loucos. Aprendemos a lidar com ele, descobrimos todas as suas manias e aceitamo-lo como um membro da nossa família. Não lidava com ele como uma irmã, uma tia ou uma amiga. Comecei a tratar dele como um filho. O seu sorriso, os seus gestos, os seus sons…enchia-me, sem dúvida alguma, o coração. Quase sem me aperceber estava a concretizar um sonho: ser mãe.

Entrei no quarto e ouvi mais uma vez os sons estranhos e indecifráveis do Matteo. Estava animado, sentado no berço e a brincar com os bonecos. Peguei nele e caminhei em direção ao nosso quarto.
- Bom dia Stephan! – falei com voz doce, peguei na mão do menino e acenei-lhe. Continuou deitado e nem nos olhou – Stephan? – chamei agora com voz normal.
Caminhei em direção à cama e deitei-me, colocando o Matteo no meio de mim e do Stephan, que já dormia outra vez. Peguei no menino e coloquei-o sobre as costas dele. Se há coisa que o Matteo adora é puxar cabelos e para o acordar não havia melhor forma.
- Eu não acredito que fizeste isto! – falou no fim de se queixar.
- Não fui eu! – defendi-me. Começava a virar-se – olha o menino. – levantei o Matteo, quando o Stephan se virou coloquei-o novamente sobre ele.
- Ele gosta de mim – deu-lhe as mãos e começou a brincar com ele enquanto eu observava tudo aquilo.
- Tenho medo de ficar com ele esta noite, sozinha. – confessei.
- Queres ir comigo para o estágio?
- A falar a sério agora… - olhou-me mais sério. Levantou-se e sentou-se na cama. Colocou o Matteo sentado junto dele com as costas apoiadas nas suas pernas.
- Podes ir para casa do Salvador, tenho a certeza que ele e a Gabriela te acolhem de boa vontade.
- Não sei…eles estão todos animados com a chegada do Miguel e estão a construir a vida deles. Não me está nada a apetecer ir para lá.
- Então…dorme com ele aqui. Eu sei que o teu medo é ele dormir ali no outro quarto e tu aqui, por isso…trá-lo para aqui, para dormir contigo.
- Não o podemos habituar…
- É só uma vez.
- E as outras todas que já dormiu connosco? – sorriu-me e passou o seu polegar pela minha face.
- É para teu bem e o dele.
Levei a minha mão à do Matteo que agarrou um dos meus dedos, fazendo mais dos seus sons em seguida.
- Estás demasiado pensativa que se passa?
- Já falamos – peguei no Matteo e levantei-me – nós vamos vestir-nos e aguardamos que quando descermos o pequeno-almoço esteja pronto, menino Stephan!
- Isso é uma ameaça?
- É! Se não estiver o pequeno-almoço pronto, nós trocamos-te!
Chegou perto de mim e depois de dar um beijo na testa ao Matteo beijou depois os meus lábios.
- Estás estranha.
- Stephan, já falamos – disse-lhe, encaminhando-me em seguida para a casa de banho.

Desci minutos depois, já com o Matteo vestido e pronto para mais um dia.
Sentei-me numa cadeira e coloquei o menino nas minhas pernas. O Stephan colocou-me a farinha láctea à frente já preparada.
- Vá, fala – debruçou-se sobre a bancada enquanto eu ia dando de comer ao Matteo.
- Stephan é o menino…ele não é nosso. Nós estamos apenas a cuidar dele. A Andrea pode chegar a qualquer momento e tirá-lo da nossa vida.
- Eu sei…
- Eu já não consigo imaginar a nossa vida sem ele. Quando ele sorri e nos faz sorrir também, ou quando ele se baba todo para cima de ti – o Stephan sorriu - ele veio sem dúvida, alegrar a nossa vida. Tem sete meses e meio. Nestas semanas a evolução dele tem sido tão notória e magnífica. Ontem gatinhou até mim, foi tão bonito, Stephan.
- Tens medo de te prender demasiado a ele?
- Sim. Eu sei que me vai custar imenso deixá-lo, depois. Mas não posso simplesmente rejeitá-lo! Ele precisa de amor, do nosso amor.
- E é o que nós estamos a fazer, Rita. Nós estamos a dar-lhe amor. Não penses no futuro. Foca-te apenas no presente.
Peguei na colher e enchi-a de farinha láctea levando depois à minha boca.
- Rita, não lhe comas o pequeno-almoço. – disse o Stephan com um sorriso na cara.
- Isto é bom! – o Matteo começou a agitar as suas pequenas mãos.
- Isso é bom e ele não está a achar piada nenhuma estar a ver-te comer o que é dele.
- Pronto, eu partilho – disse, levando depois a colher à boca dele – ele come muito!
- Os bebés são assim.
- Sim mas…ele come mesmo muito. É como tu!
- Eu não como muito! – falou fazendo-se de ofendido.
- Comes sim.
- Não. Tu é que comes pouco!
- Talvez seja isso, sim.
A campainha tocou e o Stephan saiu da cozinha indo abrir a porta.
Continuei a dar de comer ao Matteo que começava a ficar agitado.
- Bom dia! – saudou o Balotelli assim que entrou na cozinha.
- Bom dia, tio Balo! – disse enquanto pegava na mão do menino e lhe acenava.
- Como é que vai isso? – perguntou apontando para o Matteo.
- Vai bem! – mostrei-me animada e sorri-lhe – tem sido um grande desafio mas acho que até nos temos portado à altura.
- Preciso de falar contigo, na verdade – sentou-se na cadeira que estava junto da minha.
- Comigo? – perguntei surpreendida.
- Sim…é que…
- É que…? – perguntei tentando seguir o seu raciocino.
- Eu ando a sair com uma rapariga…
- Oh meu Deus, é cega? – perguntei levando o Stephan a rir-se.
- Não! Rita, isto é sério.
- Continua então. – peguei no Matteo e fiz sinal ao Stephan – leva-o para cima e  coloca-o no berço a brincar, enquanto te preparas, que eu depois vou busca-lo.
- Chama-se Claire – disse assim que o Stephan foi em direção ao quarto – é bonita e…
- Deve ter um equilíbrio emocional enorme!
- Rita…
- Desculpa, ando com um humor estranho. É dos dias demasiado agitados. – ajeitei-me na cadeira, coloquei o cotovelo em cima da bancada e deixei a minha cara cair sobre a mão – continua.
- Ela é boa rapariga e eu acho que até gosto dela.
- Sim…
- Mas é complicado.
- É…?
- Sim. Ela é jornalista.
- Esses romances costumam ser engraçados! Olha o Iker e a Sara ou então o Filipe e a Letizia!
- Quem são o Filipe e a Letizia?
- Esquece essa parte. O que é que é complicado afinal? Ela ser jornalista?
- Não! É mesmo o facto de eu não conseguir abordá-la como deve ser.
- Tens medo?
- Não…é que… - olhou em volta para depois voltar a olhar-me – sim, eu tenho medo.
- Sabes que mais? Pede conselhos ao Stephan.
- Rita!
Levantei-me e comecei a caminhar em direção ao andar de cima. Olhei para trás e reparei que ele vinha atrás de mim.
- Eu não sei dar conselhos – constatei ao chegar ao quarto lamento – peguei no Matteo que brincava no berço com uns bonecos. Sentei-me sobre a cama e coloquei-o junto a mim – mas um dia posso vir a saber…
- O que é que estás para aí a dizer?
- Eu também não sabia cuidar de uma criança, nem imaginava quanta responsabilidade é preciso ter. Não sabia que ele precisava de tanta atenção ou até que às vezes o meu sorriso provoca o dele – comecei a mexer na mão do Matteo enquanto falava – mas agora sei tanto. Sei que ele adora ser acordado com beijinhos e que adora cócegas. Não consegue adormecer tão bem nos braços do Ste porque ele ainda não tem aquela insegurança quando lhe pega. E que dorme otimamente quando dorme no meio de mim e do Stephan, mas é algo que não podemos tornar um hábito.
Coloquei o Matteo sobre as minhas pernas e dei-lhe alguns beijos seguidos nas suas bochechas.
- Estás bem? – perguntou olhando para mim sério.
- Sim…
- O miúdo anda-te a fazer mal a essa cabeça!
- Não anda não. Pelo contrário, sinto-me mais feliz que nunca.
- Vamos? – o Stephan entrou no quarto, pronto para ir para o treino. Deu-me um leve beijo nos lábios para depois se afastar juntamente com o Balotelli, no fim de se despedirem de nós.
Fiquei algum tempo com o Matteo no quarto.
A campainha que despertou-nos de todas aquelas brincadeiras. Peguei no menino e comecei a encaminhar-me para o andar de baixo.
- Vamos ver quem é? – falei, chegando perto da porta.
Abri a porta e a Gabriela entrou com os seus sete meses de gravidez. Com uma barriga já bem grande.
- Bom dia! – saudou, beijando-me uma das bochechas.
- Bom dia.
- O Stephan? – perguntou, retirando-me o menino dos braços.
- Foi-se embora…para nunca mais voltar.
- Agora a verdade.
- Ele volta amanhã à noite depois do jogo.
- Isso quer dizer que…
- Hoje e amanhã estou só com o Matteo. – completei.
- E…?
- Temos a casa finalmente livre para a sessão! – respondi percebendo a onde ela queria chegar.
- Sim!
- Então…vamos começar? – perguntei começando a caminhar em direção à sala.
- Sim!
- Está bem mas agora… - caminhei em direção a ela retirando o Matteo dos seus braços – o bebé é meu! – finalizei, levando-a a rir.




- Isto de estar na casa do inimigo não é muito confortável. Rita? – olhei-o – podemo-nos tratar por tu, certo?
- Sim, sim. – respondi. Ajeitei-me na manta que tinha há pouco colocado sobre a relva. Coloquei o Matteo no meio das minhas pernas e à sua frente pus dois brinquedos com que ele se apressou a divertir.
- Não sabia que tu e o Stephan tinham um filho. – disse o Mauro.
- E não temos – esclareci.
- Ah, então e…tu és portuguesa?
- Sim, sou.
- Eu sou Argentino.
- Nota-se – constatei, visto que estava a falar espanhol, desde que eu lhe tinha respondido em português – vamos parar de falar de mim e começar a falar de ti, que é por isso que estamos aqui.
- Tens que idade?
- Dezanove. – respondi. Compreendi que não lhe tinha interessado minimamente aquilo que tinha dito anteriormente.
- Eu tenho vinte e um.
- Eu sei. Sabes que tive que me informar minimamente sobre ti para poder fazer esta suposta entrevista.
- Isso é engraçado.
- Bastante. – coloquei o Matteo de pé e segurei-o para não cair. Começou a mexer as suas pequenas mãos até encontrar o meu cabelo e começar o puxar – sempre a mesma coisa, Matteo – falei-lhe sem que houvesse mudança de comportamento dele – isso não se faz, bebé – finalizei colocando o cabelo para trás, para ele não o conseguir alcançar.
- Oh Rita? – ouvi a voz da Gabriela dentro de casa.
- No jardim! – falei bem alto para que ela pudesse ouvir.
- Vinha ver as fotos – disse assim que chegou ao jardim – quem é este? – perguntou com a típica lata que se acentuou desde que engravidou.
- Mauro Icardi, jogador do Inter – falou esticando-lhe a mão.
- Gabriela Martins, grávida de quase oito meses do Miguel – falou esticando-lhe também a mão – quando é que tens um tempinho para mim?
- Quando acabar a entrevista do Mauro.
- E ainda vai demorar muito?
- Por este andar sim! – olhei-o e reparei que estava com cara confusa – mas passa cá antes de jantar que eu mostro-te as fotos.
- O Stephan?
- Ainda não veio do treino mas deve estar a chegar.
- Queres que dê de comer ao Matteo.
- Deixa estar, o Stephan faz isso quando chegar, ele gosta. E assim vai treinando.
- Sim, isso é verdade. Treina para o sobrinho – disse passando a mão pela sua barriga – para os filhos. – olhou em volta para depois voltar a olhar-me – o Dacky?
- Deve estar lá em cima, a dormir para variar. Aquele cão gosta mais de dormir que eu. Podias leva-lo.
- Podia era levar o Matteo, eu e o Salvador não nos importamos de ficar com ele e além disso vocês bem precisam de uma noite mais calma…ou não! – piscou o olho e voltou para o interior de casa.
- Vamos finalmente começar? – perguntei virando-me para o Mauro.
- Sim, podemos começar.
- Acho que mais nada nos vai incomodar. – disse colocando o Matteo na posição mais confortável para ele – podemos começar por falar da tua infância.
- Cheguei! – reconheceria aquela voz em qualquer parte do mundo. O Stephan chegou ao jardim, olhou-nos seriamente. Provavelmente já não se lembrava que eu iria fazer aquela pequena entrevista ali em casa.
Cumprimentou o Mauro e depois veio até mim. Beijou-me mais intensamente que o normal e pegou no Matteo.
- Está tudo bem? – perguntou já com o menino nos braços.
- Sim, tudo ótimo – garanti.
- Espero bem que sim – falou numa voz mais baixa saindo do jardim.
Olhei para o Mauro que me olhava de uma forma mais séria, agora.
- Desculpa se no meio de toda esta conversa nos fiz perder tempo – falou, baixando a cabeça depois – vamos então começar a sério?
- Sim, claro!


- Tens razão, Stephan. Aquele rapaz não inspira confiança nenhuma!
- Gabriela! Não lhe dês razão – repreendi.
- A Gabi tem razão, Rita. Quando cheguei ele estava a comer-te com os olhos!
- Stephan…não exageres. Foi uma entrevista rápida e inocente.
- Por vontade dele não era nada inocente!
- Concordo! – disse a Gabriela.
- Vamos ver as fotos ou não? – perguntei, tentando esquecer aquele assunto.
- O Stephan não pode ver todas. Há aquelas em que estou quase sem roupa.
- Meu Deus! Mas vocês fizeram uma sessão fotográfica para a playboy?
- Não! – falei, dando-lhe uma chapada no braço – foi uma sessão bem gira mas sabes que grávidas quase sem roupa têm muito mais encanto. A barriga bonita…
- Já sentiste um pontapé? – perguntou a Gabriela curiosa encostando-se ao ombro do Stephan.
- Não ainda não senti nenhum.
- Eu já. – encostei-me ao outro ombro dele e coloquei as mãos em torno do seu braço – mas é uma sensação bem estranha, digo-te já.
- Um dia vamos senti-la – disse ele – por falar em bebés, o Matteo já está a dormir?
- Sim. Hoje o dia foi agitado para ele. Daqui a umas horas acorda e quer é comer – peguei no portátil que estava sobre a pequena mesa da sala – vamos ver as fotos e o Stephan fecha os olhos nas fotos que não são para ele ver.
Abri a pasta das fotos e comecei a passá-las, uma a uma. As reações da Gabriela eram distintas, ou adorava ou dizia que a posição não a favorecia.

















- Bem – a Gabriela encostou-se para trás e eu coloquei novamente um portátil sobre a mesa – só de pensar que daqui a uns meses já está nos meus braços.
- E vai ser chato como os pais! – brinquei – vai chorar muito de noite.
- O Matteo chora muito?
- Não, Gabi – o Stephan falou e colocou um dos seus braços em torno dos meus ombros – o menino porta-se bem.
- Então e noites escaldantes, têm tido? – perguntou em tom de brincadeira.
- Muitas! Nem tu imaginas quantas! Acho que nem temos tempo para nos beijarmos como deve ser…
- É assim que vai ser a minha vida no fim de ter o Miguel?
- Provavelmente.
- Vou deixar de ter noites escaldantes com o Salvador?
- Gabriela…eu dispensava saber que tens noites escaldantes com o meu irmão.
- Sabes bem que o teu sobrinho não foi encomendado à cegonha, certo?
- Sei mas…não é algo que eu goste de pensar. Tu e o meu irmão ainda não…
- É! – concordou o Stephan.
- É? Também tu, Stephan?
- Gabriela, minha cara amiga. Quando conheci a Rita o Salvador namorava com a Mariana, depois passado algum tempo começou a namorar com a Francesca e agora…tu.
- Se acrescentarmos a essas as antecedentes que eu conheci, ui! O meu irmão é sem dúvida um garanhão. E o que é que eu tenho a dizer? Que namorou com uma data delas para agora estar junto com a minha melhor amiga! A rapariga que desde sempre viveu à frente de nossa casa em Coimbra!
- É caso para dizer, o amor esteve sempre à frente do nariz dele e o Salvador nunca notou.
Ouvi o choro do Matteo, ajeitei a minha roupa e levantei-me do sofá.
- Aqui está a minha deixa, é agora que vos deixo para ir ter com o meu rebento – acenei com a mão enquanto me dirigia à escada.
- Eu também vou! – a Gabriela também se levantou e caminhou até mim.
- E eu também não vou ficar aqui não é? – perguntou o Stephan sorrindo.




Passei ao de leve a minha mão pela face do Matteo enquanto este dormia nos meus braços. A serenidade com que dormia era imensa. Fazia-me acalmar e relaxar por momentos.
- Rita…? – a voz saiu-lhe fraca. Levantei a cabeça e olhei em frente. A cara pálida, aqueles olhos pouco brilhantes e aquela voz fraca, eram sem dúvida as provas que eu precisava de ter para agora conseguir compreender a sua decisão – a última vez que te vi não tinhas essa criança – constatou, levantando ainda com alguma dificuldade o seu pescoço.
- Bem, a última vez que te vi tu também não tinhas um cancro, ou será que tinhas?
- Filha…
- Calma – interrompi. Precisava sem dúvida que ele me ouvisse e percebesse que eu não o iria julgar mas sim compreender – se calhar fui um pouco bruta mas não era a minha intenção. Quero que saibas que não estou aqui para te julgar, sim?
- Não? – notei espanto na sua voz ainda deveras fraca.
- Não. – ajeitei o Matteo nos meus braços e continuei - Não sei se no teu lugar faria o mesmo mas…agora percebo essa necessidade de proteger os filhos. Temos sempre medo de os magoar mesmo que às vezes a decisão que tomamos ainda os vá magoar mais. É uma necessidade irracional, até, de proteger aqueles simples seres indefesos. É a dúvida de fazer o correto ou fazer o incorreto mas conseguir protegê-los. Porque um filho é algo nosso, é um amor único, é um amor sem medida…
- Meu Deus…como tu cresceste…
- Posso-te garantir uma coisa pai, eu só te compreendo hoje porque tive a sorte desta criança ter entrado na minha vida.
- E quem é?
- É o Matteo – movimentei-o, já que começava a acordar. Por incrível que parecesse acordava de uma maneira pacífica. Não começou a chorar, apenas começou a mover as suas pequenas mãos freneticamente enquanto abria os olhos – é uma história longa mas resumindo eu e o Stephan estamos a cuidar dele durante algum tempo.
Levantei-me daquela cadeira que começava a tornar-se desconfortável, andei até à cama onde ele se encontrava deitado e afastou-se para um lado para assim eu me poder sentar no outro.
- Perdoas-me?
- Hum, deixa-me pensar. És meu pai por muito que te queira odiar por te teres afastado de nós eu não consigo… - consegui colocar o Matteo sentado na cama também e agarrei-o apenas com uma mão para levar a outra à do meu pai – mas pai, tu…principalmente tu, que há muito tens sido também a minha mãe, não sei como me conseguiste fazer isto… – admiti. Desde a minha adolescência que a relação com o meu pai foi sempre muito melhor do que com a minha mãe e ele ter-se afastado foi terrível.
- Desculpa, Rita. Sabes que o amor às vezes nos leva a fazer escolhas menos acertadas e este foi um desses momentos – fiquei a pensar naquelas palavras e momentos depois reparei que o Matteo agarrava a mão do meu pai – que criança magnífica.
- Pois é. Mas esta criança magnífica não pode frequentar constantemente estes sítios porque pode apanhar algum vírus e isso não é nada bom – levantei-me e peguei no Matteo. Baixei-me depois e dei um beijo na testa do meu pai – já estive a falar com o teu médico. Ele disse que esta crise é algo que não é muito normal mas que não é caso para muita preocupação. Ele disse-me que tem sido algo complicado habituares-te à radioterapia e à quimioterapia mas ele acredita que como foi detetado a tempo esse cancro é um alvo que se vai combater – sorri-lhe tentando transmitir-lhe alguma força, ele precisava bastante dela – nós estamos contigo e acreditamos que vais vencer isto rápido – peguei na minha mala e preparei-me para sairamanhã volto cá, prometo.
- Obrigado, filha.


- Ficas cá por muito tempo? – perguntou a Mara assim que acabámos de almoçar.
- Até o meu pai estar melhor.
- Mas o que é que ele tem, Rita?
- Cancro do pulmão.
- Ui, isso não é nada fácil mas…foi detetado cedo?
- Parece que sim. Fez uns exames de rotina que detetaram algo anormal e aí o médico dele entrou em ação.
- Isso é bom, sabes? Quando são detetados a tempo têm sempre uma maior probabilidade de serem curados – a Mara brincava com o Matteo enquanto este estava sobre as suas pernas – vou passear ali um bocadinho com ele, não te importas?
- Não, claro que não – achei estranho aquela repentina vontade se passear. Olhei para trás e reparei que o Manu caminhava na minha direção - está…tudo bem? – perguntei apontando para a Mara que caminhava junto ao rio com o Matteo nos braços.
- Não, não está nada bem – respondeu pouco contente – eu propus que ela viesse comigo para Itália e ela disse que não, achas normal?
- Acho! Claro que acho!
- Mas…Rita! Tu foste para Itália!
- Eu não sou exemplo para ninguém, Manu! Eu fui para Itália porque não tinha qualquer tipo de vida formada, a Mara tem. Ela trabalha, tem uma vida estável, agora, e deve ter prestativas para o futuro. Não podes querer que ela mude tudo só porque agora tu existes na vida dela.
- Obrigado – foi irónico e percebi que talvez não tivesse usado as palavras certas.
- O que eu quero dizer com isto é que tens que lhe dar tempo. Se ela sentir que és o tal, ela vai arranjar maneira de a vossa distância ser reduzida. Pode demorar dias, semanas, meses ou até anos mas a paciência é uma virtude e nestes casos precisas de tê-la em grandes quantidades – olhei em volta e senti o vento a embater-me no rosto, como sabia bem – eu sei que a distância é lixada. Bem lixada, até mas não é nada que não se aguente. Vais passar por uma experiência que eu e o teu irmão já passámos. Às vezes a distância ajuda a tornar certas ideias mais claras, eu que o diga!
- Vou acreditar em ti – olhámos os dois para a Mara que continuava a caminhar com o menino nos braços – ela é tão linda.
- E tem muito jeito com crianças! – acrescentei.




- Devias ter filhos – o Afonso brincava com o Matteo enquanto ele estava sentado nas minhas pernas.
- Não achas que sou demasiado nova? – perguntei.
- Talvez mas…e casar?
- Casar, Afonso?
- Sim. Tu e o Stephan já estão juntos há mais de dois anos, não está na altura?
- Não, não está na altura.
- Não sei porquê…
- Ok, estás com uma conversa muito estranha, passa-se alguma coisa?
- O pai, Rita…
- Ele vai ultrapassar isto, vais ver.
- Não sei se vai.
- Como assim, não sabes se vai? – perguntei olhando-o séria.
- Ontem quando estive cá ouvi uma conversa entre o médico do pai e ele. Ele disse-lhe que o corpo do pai não estava a reagir tão bem à quimioterapia como esperado. O médico também lhe disse para aproveitar o tempo da melhor forma possível porque nunca se sabe o que o futuro lhe reserva.



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Boa noite!
Voltei, passado mais de um mês mas voltei. Devo-vos um pedido de desculpas e aqui vai: as minhas sinceras desculpas.
Espero que gostem ;)
Aguardo os vossos comentários
Beijinhos,
Mahina