domingo, 10 de maio de 2015

40º Capitulo - «Se não nasceu de mim, certamente nasceu para mim»

- Oh meu Deus! Ele está a comer-me o dedo! – «arranquei» o Matteo dos braços do meu irmão e coloquei-o no chão, perto de alguns brinquedos.
- É normal! O Stephan perdeu as chupetas!
- Isso é mentira – sentou-se no chão perto do menino e olhou-me – tu é que não sabes delas.
- Porque tu as perdeste!
- Encontrei a chupeta! – a minha mãe saiu da cozinha com uma delas na mão – estava em cima da mesa, na cozinha.
- Como se prevê, foi o Stephan!
- Eu não sei o que é que se passa contigo mas estás mesmo inconveniente comigo!
- A minha irmã sempre foi assim – o Afonso pronunciou-se e olhei-o nada contente com aquilo que tinha dito – mas é um amor de pessoa.
- Pois, claro – encostei-me e cruzei os braços.
- Está chateada… - disse o Afonso num baixo tom.
- Oh fofinha – virou-se para trás e colocou as suas mãos nas minhas pernas, ainda sentado no chão.
- Não me chames fofinha, Stephan.
Olhou-me com um sorriso na cara, sorriso ao qual não correspondi. Levantei-me e baixei-me pegando no Matteo.
- Vamos dormir, adios!
- Rita?
- Adeus, adeus – peguei na mão do Matteo e acenei-lhes dirigindo-me para o meu quarto, ou melhor antigo quarto.
Deitei-o sobre a cama e em seguida coloquei-me ao seu lado. Estava cansada, talvez precisa-se de uma sesta tal como ele.
- Esqueceste-te da chupeta – o Stephan entrou no quarto e deitou-se do outro lado do Matteo. Arranquei-lhe a chupeta das mãos e dei-a ao menino. Agarrou a minha camisola com uma das suas pequenas mãos e o Stephan olhava-nos enternecido.
- Agora vamos dormir, por isso não faças barulho.
- Está muito mandona a menina!
- Falas baixo se faz favor? – tentei manter cara séria e acho que consegui – estou farta de ti.
- Que coisa bonita de se dizer…
- Enervas-me! Tens esse bonito dom de me enervar.
- Não, não é só isso! Há algo mais!
- Volto a repetir: estou farta de ti.
- Sim, eu também te amo.
- Stephan, cala-te por favor. Ele tem que dormir senão fica rabugento.
- Eu vou-me embora, então.
- Fecha a porta! – avisei agora em voz mais alta assim que se dirigia para o exterior do quarto.
Ri-me baixinho enquanto olhava o Matteo que também me olhava com olhos de sono.
- E assim se testa a paciência de um homem… - falei começando a fazer algumas caricias na cara do menino.


- Ainda gostas de mim? – era a quarta vez que me fazia aquela pergunta desde que tinha voltado para a sala.
- Não me chateies. – pedi calmamente enquanto «navegava» pelos canais.
- Eu fiz alguma coisa que tu não gostasses?
- Fizeste! – olhei para ele – ainda não te calaste hoje!
- Mas… - coloquei o meu dedo indicador sobre os seus lábios, impedindo que falasse.
- Um bocadinho de silêncio da tua parte é pedir muito? – encostei-me a ele e agarrei os seus braços colocando-os em torno do meu corpo – pronto, assim estás ótimo.
- Passa-se alguma coisa?
- Não… - passei os meus dedos pela mão do Stephan que estava na minha cintura – estou cansada. E…amanhã vamos para Savona…
Começou a rir-se imenso e rodei o meu pescoço olhando-o.
- Shiu! – barafustei, dando-lhe uma leve palmada na mão.
- É cómico!
- Muito cómico, sem dúvida!
- Tu estás com medo da minha mãe!
- E tu em vez de me acalmares, ris-te!
- Tem piada, Rita.
- Ui, uma piada louca! Eu chego ao pé da tua mãe e digo: olá, eu sou a Rita namoro há 1 ano e 7 meses com o seu filho e sim…isto é um bebé que eu tenho nos braços mas não é filho do Stephan nem meu mas…como é que eu hei de dizer isto, uma rapariga chamada Andrea, que até destruiu o nosso namoro há uns meses, decidiu que o filho dela devia ficar connosco. É uma história bastante bonita, não acha? E sabe a melhor parte? Nós tratamos o Matteo como nosso filho mas ela jurou que voltava por isso a qualquer momento ela pode tirar-nos o miúdo dos braços e pronto, esta história tão bonita pode ter um final trágico.
- E ela responde-te: fogo, és mesmo gira como o meu filho!
- Convencido! – dei-lhe outra palmada desta vez no braço.
- Estás a levar as coisas de uma forma muito séria. Rita, eu escolhi-te a ti, certo? Não interessa o que ela pensa de ti ou se até gosta ou não de ti. É comigo que namoras, é comigo que um dia te vais casar e é também comigo que um dia vais ter filhos por isso não leves isto tão sério.
- Isso para vocês rapazes é muito fácil mas nós precisamos de uma sogra que goste de nós acredita! É só um passo para o nosso futuro.
- Isso quer dizer que se a minha mãe por alguma razão não gostar de ti, a nossa relação não tem futuro?
- Não sei, ainda não quero pensar nisso.
Apertou-me contra si e deu-me um beijo na bochecha.
- Não sejas paranoica. Primeiro de tudo ela vai gostar de ti e segundo…ela vai gostar de ti porque já gosta.
- Falas muito com a tua mãe sobre mim?
- Convencida! Achas? – deu-me mais um beijo – sim por acaso falo muitas vezes de ti quando falo com ela. É um recorde! Um relacionamento meu nunca durou tanto.
- Que tal um prémio para mim? A companheira mais duradoura de El Shaarawy? – perguntei ironicamente.
- Parva!
- O bebé acordou – a minha mãe aparecia na sala com o Matteo nos braços, sentou-se junto a nós e rapidamente ele me olhou e agitou as suas mãos na minha direção.
- Anda cá, meu amor – larguei-me dos braços do Stephan e agarrei-o colocando-o nas minhas pernas, encostou depois a sua cabeça ao meu peito, ainda estava a acordar – como está o pai? – perguntei virando-me para a minha mãe.
- Eu vou preparar a papa. – avisou o Stephan ausentando-se da sala.
- Ele… - fez sinal para a cozinha para onde o Stephan se tinha dirigido.
- Sim, ele sabe preparar a farinha láctea e saiu porque percebeu que eu queria ficar sozinha contigo. Até tenho um namorado inteligente! – brinquei levando a que ela se risse.
- Até me admirei ainda não teres perguntado nada desde que cá estás.
- A história do Matteo já era suficientemente difícil de dirigir. Agora que toda a gente está a par disto, está na altura de perguntar.
- Tens falado com ele?
- Sim. Uns dias noto a voz dele mais animada, outros dias parece que está a morrer aos poucos…é complicado. Ainda não consigo lidar bem com isto.
- Estávamos a tentar com que ele viesse para aqui mas chegámos à conclusão que por agora é melhor ele ficar no Porto. Quando vocês forem embora queria ver se ia para lá passar as férias de verão.
- E o Afonso? Sabes que nós ficaríamos com ele se não fossemos andar de um lado para o outro nos próximos dias.
- Eu sei – colocou a sua mão por cima de uma das minhas que agarrava o Matteo – ele queria ir a Coimbra este Verão, podia ficar com a vossa tia ela de certeza que não se importa.
- Quando nós voltarmos, seja lá de onde for, ele podia vir para Itália uns dias. Nessa altura o Miguel já deve ter nascido…ou não.
- E no prazo de poucos meses, tenho dois netos!
- Por mais que eu te quisesse dizer para te afeiçoares ao Matteo é melhor ir com calma. A Andrea pode-o levar a qualquer momento.
- O Stephan tem razão Rita, estás a pensar muito no futuro. Pensa mais no agora, vá lá!
- Eu não consigo, o medo atormenta-me cada dia que me levanto e me apercebo que ele não é meu por mais que eu queira acreditar que sim.
- Cada vez a vida te propões mais desafios e olha…até agora conseguiste passá-los todos – percebi que falava com uma voz estranha, ela ia dizer algo importante de certeza – primeiro deu-te a escolher entre apaixonares-te ou não e o que é que tu fizeste? Apaixonaste-te e correste atrás desse amor mesmo tento feridas por sarar. E entre outros, passaste pela separação dos teus pais e o cancro do teu pai, que só soubeste há pouco tempo.
- Mas…e a separação? – interrompi – é mesmo para andar para a frente?
- Não sei. Naquela altura foi o melhor que «arranjámos». O teu pai só me contou da doença passado uns meses. Mas podes a certeza que continuo a amá-lo da mesma forma.
- Isso é bonito – sorri-lhe – bastante bonito.
- Tenho muito orgulho em ti, Rita. Apesar de já termos os nossos problemas e de já teres feito escolhas que eu não, na altura, achei as mais acertadas, estás a construir a tua vida.
- Ai – suspirei – amanhã vou conhecer a minha sogra.
- É mau?
- O Stephan diz que não. Mas eu não confio muito nele, como já deu para entender.
- Não confias tu noutra coisa – deu-me uma ligeira palmada na perna e levantou-se, dirigindo-se para a cozinha de onde o Stephan saiu segundos depois.
- Eu dou! – disse assim que se sentou junto de mim.
- Para tu lhe dares de comer é preciso primeiro eu deixar.
- Eu tenho tanto direito como tu!
- Isso é mentira! É a mim que ele puxa o cabelo.
- Até parece que a mim não puxa!
- Puxa mas não é da mesma forma.
- Eu dou! – voltou a repetir.
- Chato! – cruzei os braços depois de ele me retirar o Matteo e olhei-o irritada.
- Isso é tudo birra? – não lhe respondi e continuei a olhá-lo esperando que cedesse – Rita Lopes Almeida, deixa de fazer birra!
- Eu não estou a fazer birra! – defendi-me – tu é que estás a ser inconveniente!
- Oh amorzinho – passou o seu dedo indicador pelo meu nariz – estás tão linda hoje e tão…como é que hei de dizer? Rabugenta! – olhei para o lado, senti a sua mão no meu queixo e virou-me para ele – damos os dois, anda lá.
Cheguei-me para perto dele e ajeitei o Matteo no meio de nós, mostrou logo o seu entusiasmo e riu-se. Fiz-lhe algumas cocegas, sentando-o depois na minha perna virado para o Stephan.
- Primeira colher é para quem?
- Para a mãe! – respondi.
O Stephan sorriu e deu-lhe a primeira colher passando-a depois para mim.
- E a segunda colher é para quem? – perguntei dando voltas com ela cheia de farinha láctea.
- Para o pai! – dei-lhe a colher, passando-a mais uma vez ao Stephan.
- E a terceira colher?
- Vai para a avó.
- Qual delas? – questionou-me o Stephan com um sorriso no rosto.
- Para a que vamos conhecer amanhã e vai gostar muito de mim, não é Matteo? – o menino riu-se colocando uma das mãos no meu peito e a outra no peito do Stephan.




- Não! – estiquei o meu braço e embati com uma das minhas mãos no peito do Stephan – é melhor não entrarmos!
Olhou para mim, fez uma breve caricia no rosto do Matteo que estava nos meus braços e olhou-me.
- Dá-me uma boa razão e não o fazemos.
- Hum…oh Stephan – supliquei – eu não quero!
- Anda criança! – agarrou a minha mão e fez-me caminhar ao seu lado – tu estás grávida?
- Não! – atirei, olhando-o surpreendida com aquela pergunta.
- Praticas-te algum crime até aos dias de hoje?
- Não! Que raio de perguntas são essas?
- Então não entendo o porquê de tanto medo – parei novamente e olhou-me – confias em mim?
- O que é que te parece?
- Então confia em mim mais uma vez e vamos entrar!
- Certo – continuámos a caminhar – confiar… - sussurrei fazendo o Stephan olhar-me – tudo vai correr bem… - voltei a sussurrar.
Ele abriu um portão e caminhou, segui-o sempre com algo no meu interior a dizer-me que aquilo não iria correr bem.
Bateu à porta e esperamos algum tempo até a mãe dele nos abrir a porta, à minha frente estava o meu maior medo.
- Entrem – uma voz calma e até bem simpática nos primeiros trinta segundos de convivência.
Entrámos os dois, o Stephan começou a caminhar, com algum destino com certeza, e eu apenas o segui. Chegamos a uma sala, tranquilizadora e vazia. Ele sentou-se e fez sinal para eu fazer o mesmo ao seu lado. Coloquei o Matteo sobre as minhas pernas e apertei-o contra mim.
A mãe do Stephan apareceu passado uns segundos e sentou-se à nossa frente, a verdade é que nunca pensei ficar tão aterrorizada.
- Bem e cá está a rapariga que tem medo de mim – olhei para o Stephan chocada, ele tinha-lhe contado? – eu juro que não sou a sogra malvada!
- Viste? – o Stephan falou e voltei a olhá-lo sem dizer uma única palavra – ó amorzinho, vá diz lá alguma coisa – incentivou, acariciando-me o cabelo.
- Vá, Stephan para lá com isso. Depois a tua mãe ainda pensa que nos damos bem ou qualquer coisa do género.
A mãe dele riu-se e desta vez foi o Stephan que me ficou a olhar chocado.
- E aqui está a Rita – apontou para mim e olhou para a mãe – ela é mesmo assim! Como vês sofro de violência doméstica, em que os meus sentimentos são feridos de tal forma que…
- Stephan, cala-te! – interrompi – não dizes coisa com coisa de vez em quando.
- Concordo – já temos alguma coisa em comum e a senhora nem é tão assustadora como parecia.
Sorriu-me e levantou-se, chegando perto de mim.
- Chamo-me Lucia - levantei-me e cumprimentei-a com dois beijinhos.
- Dá beijinho – incentivei o Matteo colocando-o perto dela, ele assim fez. Um beijo muito babado, algo a que ainda não se pode chamar de beijo – eu sou a Rita e este é o Matteo.
- Eu sei – piscou-me o olho e voltou-se a sentar – aqui está a minha futura nora e a criança que é minha neta emprestada – fiquei a olhar para o Stephan e ele para mim – o Manu explicou-me tudo, adiantou-vos trabalho!
- Ele não serve só para chatear os outros! Olha que máximo! – falei sem pensar, devia ter sido mais cuidadosa com as palavras afinal estava a falar do filho dela – desculpe – pedi, segundos depois.
- Não tens nada que pedir desculpa – garantiu-me a sorrir – eu sei a bela peça que eles são!
- Tenho-lhe a dizer que fez um trabalho bastante bom com o Stephan! Ele é sem dúvida das melhores pessoas que eu conheço e tem sido um homem maravilhoso comigo.
Ele agarrou-me pela cintura chegando-me mais para junto dele.
- Não fiques convencido! – alertei – se eu começar aqui a enumerar as tuas birras… não saímos daqui hoje!
- Olha quem fala! – atirou levando a sua mãe a rir e a olhar-nos com um sorriso encantador no rosto.



- Admite – esticou o seu braço e colocou a sua mão nas minhas costas – eu tenho jeito para isto!
- Tens, tens – rodei o meu pescoço e olhei-o – mas ainda estou à espera que a qualquer momento chegue aí o teu irmão ou um dos teus amigos estranhos.
- Estranhos?
- Sim – virei-me na toalha e a mão do Stephan caiu na areia – eles são estranhos, gostam muito de ti.
- E isso é estranho?
- É! Há um que te liga quase todos os dias. Nem eu que sou tua namorada, quando estou em Portugal, te ligo todos os dias!
- Isso é porque Portugal para ti é como tirares férias de mim.
- E bem que já ando a precisar!
- Rita! Agora que estamos os dois sozinhos aqui, dizes isso?
- Tenho saudades dele…
- O Matteo está bem. Está com a minha mãe.
- Será que ele tem dormido bem e os dentes? Será que algum dente lhe anda a incomodar? E o leite? Ele pode ter enjoado do leite! Acontece, não é? E agora? Ele bebe sempre leite antes de adormecer!
- Que filme! – chegou perto de mim. Já me tinha sentado na toalha a olhá-lo apavorada – tem calma, sim? O nosso bebé está bem e nós vamos aproveitar as nossas férias, que tal?
- É melhor ligarmos à tua mãe! – conclui, pegando no telemóvel – e nem te tentes opor!
- Olá querida!
- Olá Lucia! – o Stephan olhava-me atento – acho que o seu filho me vai matar.
- Eu faria o mesmo! Estão de férias, não é suposto me ligares!
- Mas…
- Sim, o Matteo está bem e não está com nenhuma gripe ou coisa parecida. Ele está bem, eu asseguro-te isso.
- Obrigada.
- Não tens nada que agradecer mas foca-te nesses dias que vocês têm de férias. Depois vão voltar, vai começar a nova época e vai ser tudo uma confusão.
- Tem razão – olhei para o Stephan e com o pé atirei-lhe alguma areia – então, até daqui a alguns dias. Beijinho.
- Beijinho.
- Viste criança? – colocou as suas mãos na minha cintura e empurrou-me para trás ficando deitada sobre a areia, deitou-se por cima de mim e beijou-me – não precisas de estar preocupada.
- Preciso porque estamos num local público e…
- E…?
- Estarmos assim não parece bem, além disso estamos de férias e tu és conhecido, por alguma razão isto pode ir parar a uma revista qualquer e…depois a tua amante vê e não vai apreciar.
- Amante? – perguntou saindo de cima do meu corpo, ajeitei-me e sentei-me junto dele.
- Ah, claro! Esqueci-me que não tens capacidade para arranjar mulheres!
- Tu estás aqui!
- Mas fui eu que te arranjei a ti, ou já te esqueceste?
Começou a rir-se e chegou-me para junto dele, mordendo-me o ombro.
O telemóvel despertou-nos, o Stephan agarrou-o e entregou-me. A Gabriela, algo me dizia que a conversa não ia ser animada.
- Onde raio é que tu estás? – um bom começo, sem qualquer sombra de dúvida.
- Bali, my friend!
- Bali? Tu estás a dizer-me que estás em Bali? – sim, a resposta era positiva mas era melhor não lha dar – Rita, o Miguel pode nascer a qualquer momento!
- Que bom! – disse entusiasmada.
- Não, não é bom! Só era suposto nascer para o outro mês! – estava irritada, muito irritada – tu não imaginas as dores que eu tenho!
Olhei para o Stephan que me observava bastante atento.
- Queres falar com o Stephan?
- Porque é que haveria eu de querer falar com esse… - retirei o telemóvel de perto do meu ouvido e entreguei-o ao Stephan com um sorriso forçado na cara.
- Fala com ela, por favor.
Encostou o telemóvel ao ouvido e pude ver aquela cara de assustado.
- Não Gabi, a Rita não pode ir para aí – conseguia falar calmo – não, eu não mando nela mas bem que precisamos destas férias! – começou a rir-se em seguida – liga depois quando o puto nascer pode ser? – arrastou-se para junto de mim e colocou uma das mãos sobre a minha cintura – vai correr tudo bem, tens aí o Salvador, minha. Vá, força aí!
Desligou o telemóvel e entregou-mo para a mão, sorrindo.
- Força aí?
- Sim, não é isso que se diz a uma grávida quando está para ter um filho?
- Hum talvez – agarrei o seu braço e coloquei a minha cabeça sobre o seu ombro.
- Que cara é essa?
- Cara de quem acha que está tudo muito pacífico.
- Pacífico?
- Sim, estamos bem. Não há nada a correr mal, estás bem do teu pé, estamos de férias descansados, o Miguel vai nascer, temos o Matteo…está tudo bem.
- Pois está e vai ficar durante muito tempo.
- Quer dizer não está tudo bem! Eu vim para aqui com o objetivo de descansar e ainda não o fiz!
- Isso a culpa é tua! – disse mordendo-me a orelha.
- São precisos dois para dançar o tango, ou nunca ouviste dizer?




- Foram boas as férias? – a Milena aproximou-se de mim e colocou o seu braço em torno dos meus ombros.
- Não queres saber, acredita!
- Quero sim! Nem dormi de noite a pensar nisso.
- Eu também já não durmo uma noite como deve ser há mais de uma semana…
- Porquê?
- Não queiras saber Meli, a sério.
- Mas eu quero! – insistiu, levando-me a rir.
- Sexo, muito sexo… - falei em voz baixa, para apenas ela ouvir.
- Ah! – dei-lhe uma cotovelada para demonstrar um pouco menos o seu choque – mas…todas as noites?
- Creio que sim, da primeira à última noite. Chegámos ontem e mesmo com o miúdo em casa…aconteceu outra vez…
- Outra vez…
- Sim! Achas que estamos a ficar tarados?
- Não, quer dizer, não sei…talvez. Mas não me contes essas coisas todas que eu adoro escrever sobre a vida íntima de pessoas famosas!
- Ah! – olhei-a fingindo-me ofendida – não me eras capaz de fazer isso, ou eras?
- Não, não mas…lá que dava uma boa notícia para a segunda edição da nossa revista dava!
- Nem te atrevas! – disse, enquanto ela se ria sem parar.
E é verdade. A grande novidade que escondi de tudo e todos. Eu e a Milena lançamos a nossa revista. Reasons To Love A Woman, o nosso primeiro projeto a duas e que esperamos que tenha muito sucesso e adesão.
Uma revista diferente, fala dos gostos das mulheres, dos seus testemunhos em partes diferentes da sua, uma revista de mulheres para mulheres.
- Do que se estão vocês a rir, meninas?
- De…
- Nada! – interrompi a Milena, assim que esta ia responder à pergunta do Stephan.
- Estão estranhas!
- Não, fofinho. Estamos normais. A Milena é que está muito animada!
- Eu é que estou animada? Quem diria que era eu quem estava animada…
Dei-lhe outra cotovelada e queixou-se, levando-me a rir.
- «Não residiu no meu ventre, mas invadiu o meu coração. Não é fruto da minha sucessão mas molda-se segundo o meu carácter. Se não nasceu de mim, certamente nasceu para mim.» - olhei para trás conhecendo aquela voz e também aquele texto – muito bem, parabéns meninas!
- Obrigada Salvador – agradeceu a Milena – mas esse texto é da tua irmã. «É meu filho, gerado no meu coração.» - acrescentou ela ainda.
- Como é que percebeste? – perguntei sorrindo-lhe.
- Conheço a tua escrita e esse texto não engana ninguém, apesar de estar anónimo claro.
- Obrigada – agradeci – como está a Gabi?
- Chateada, mal-humorada porque diz que ainda não a foste ver desde que chegaste.
- Só chegámos ontem e tivemos que ir buscar o Matteo…e tu sabes, foi complicado.
- Muito complicado… - disse a Milena, rindo-se em seguida – eles têm uma vida muito ocupada! Já devias saber, Salvador!
- Eu ainda te bato hoje, juro que sim – falei baixo, só para que ela pudesse ouvir – mas como é que está o Miguel?
- Bem. Dorme muito e é lindo como o pai.
- Se fosse como a tia… - brinquei.
- A madrinha é feia, já te olhaste ao espelho?
- Oh meu Deus! A sério? – perguntei entusiasmada.
- Sim, se quiseres ter esse papel importante na vida do teu sobrinho…
- Eu quero tanto! – abracei-o, e dei-lhe um beijo na bochecha – obrigada – sussurrei – por tudo o que tens feito por mim.




- Rita, já estás pronta?
- Sim! – saí finalmente do quarto e dei uma volta, para ele ver o que tinha vestido – estou bem?



- Ótima! – agarrou a minha mão e começou a caminhar para o exterior da casa.
- Achas que nos vão fazer perguntas difíceis?
- Não, é só uma hora.
- Só? – perguntei admirada – isso é imenso tempo!
- Não é não! É pouco tempo acredita!
- Vão falar só sobre ti?
- Não, sobre nós.
- Eh! – ele olhou-me admirado – não faças essa cara! É verdade! O que é que há para dizer sobre nós?
- Tanta coisa!
- Bem, sim até há mas são coisas intimas e eu não quero que toda a gente saiba.
- Se não quiseres responder não respondes.
- É em direto?
- Não.
- Hum – ele entrou no carro e eu fiz o mesmo – no outro dia lembrei-me que falaste de mim quando fizeste aquela entrevista depois da lesão.
- Pois falei! E não correu tão bem?
- Não, não correu assim tão bem. Tive duas miúdas atrás de mim no dia a seguir a perguntar se tu eras bom namorado!
- Agora podes responder a isso em público. «Sim, ele é o melhor namorado do mundo!»
- Vai sonhando!
O caminho até aos estúdios do Milan channel foi feito entre brincadeiras e coisas parvas como sempre. Não conseguíamos ser diferentes, nós eramos assim mesmo.
Prepararam-nos para a suposta entrevista de casal do mês. Ia olhando para o Stephan que falava com toda aquela gente, sentia-me deslocada na verdade.
- É a Ruth! – disse o Stephan com uma rapariga morena e bonita ao seu lado.
- Olá – disse-me com um sorriso no rosto – eu sou a Ruth – chegou perto de mim e cumprimentou-me com dois beijinhos – podes estar à vontade, sê apenas tu. Vais ver que vai ser rápido e simples.
- Certo – sorri-lhe também e ela encaminhou-nos para os nossos lugares.
- Isto vai sem simples – sentou-se ela também no seu lugar e olhou-nos com um sorriso – vão aparecer fotos e vamos falar sobre elas. E claro, o importante aqui é falar de vocês para satisfazer a curiosidade dos fãs.
- Aí está! É isso que me mete medo! Depois vão perseguir-me na rua outra vez, Stephan! – ele começou a rir-se juntamente com a Ruth.
- Fofinha, a sério não tenhas medo disso. Ninguém te vai perseguir outra vez.
- Vai ser engraçado, a sério – garantiu-me a Ruth – vamos responder a algumas perguntas feitas por fãs no Twitter, vai ser animado, prometo – olhei para o Stephan e sorriu-me – vamos começar?
Acenamos os dois com a cabeça e a Ruth sorriu-nos e deu sinal que íamos começar. Depois de uma introdução onde ela dizia quem eramos e o que fazíamos ali chegaram as perguntas.
- Como é que se sentem por serem o casal do mês?
- Muito bem – o Stephan começou por responder e olhei-o – estava a ver que nunca mais a nossa beleza era reconhecida – ri-me juntamente com a Ruth.
- Como é que definem a vossa relação?
- Calma – respondi – acima de tudo calma.
- Dão-se bem? – perguntou a Ruth quase ironicamente.
- Não! Nós não nos damos muito bem – esclareci, entrando na brincadeira.
- Confirmas, Stephan?
- Claro que confirmo. Nós namoramos há muito tempo mas nunca nos demos muito bem.
- Para quem pensa que eles não se dão mesmo bem, eles estão na brincadeira – disse a Ruth dirigindo-se para uma camara principal – eu bem vi ali o amor deles nos bastidores.
Rimo-nos os dois e a conversa continuou, fez-nos algumas perguntas e falámos um pouco da lesão do Stephan.
 - Vamos à minha parte favorita. Fotos! – virou-se para o ecrã e apareceu a primeira foto que me levou a rir.



- Vamos criticar o vestido da Rita! – disse levando-nos a rir – isto foi ontem, certo? No lançamento da tua nova revista.
- Sim – sorri-lhe – Reasons To Love A Woman, foi o meu último projeto, juntamente com a Milena.
- Vai ter algum artigo sobre o Stephan?
- A Milena bem que me propôs isso mas eu disse-lhe que não, se por acaso essa ideia tivesse ido para a frente já não havia segunda edição. Era o fim da nossa revista.
- Ela tinha medo é que esgotassem as revistas com um artigo sobre mim! – disse o Stephan levando-nos a rir.
- Próxima ou próximas, melhor dizendo! – pediu a Ruth. Segundos depois a foto apareceu.





- Aqui estão. Tu e o teu irmão, certo?
- Sim, o Salvador. Foi uma das razões para eu me ter aventurado a vir para Itália.
- Aquela rapariga, é a Gabriela?
- Sim – o Stephan respondeu – além de ser a melhor amiga da Rita, é muito mais que isso. Tornou-se uma irmã para mim.
- E agora tem um bebé que também é nosso, o Miguel – acrescentei e quando reparei já estava outra foto no ecrã de mim e da Gabriela.



- Vamos então a uma pergunta feita no Twitter que é: onde estão as fotos das férias em Bali? – comecei a rir-me juntamente com o Stephan – onde estão? – perguntou a Ruth virando-se para nós.
- Decerta que tens alguma, Ruth! – atirou o Stephan.
- E não é que tenho? – apontou para o ecrã onde surgiram algumas fotos, minhas claro já que o Stephan é alérgico a tal coisa.





- Próxima pergunta: já pensaram em ter filhos?
- Já, já – respondeu o Stephan – mas achamos que ainda não é a altura certa para isso.
- Tês algum animal de estimação?
- Sim, o Dacky – respondi animada – não me digas que não há foto! – brinquei.
- Há sim!



- Última pergunta e esta é bastante engraçada: Rita, o Stephan é romântico? Já te fez muitos jantares?
Ri-me um pouco e pensei por alguns segundos no que havia de responder.
- Sim, pode-se dizer que é romântico mas depende dos dias, está claro. E sim, já me fez alguns jantares românticos – olhei para ele e sorri-lhe – é um doce – constatei passando a minha mão sobre o seu rosto.
- Eu disse que era a última pergunta não foi? Mas bem, mudei de ideias esta é muito mais engraçada e até eu tenho curiosidade, como é que o Stephan te pediu em namoro?
- Não foi ele que me pediu em namoro, fui eu! – disse tentando fazer cara séria.
- Mentira! – atirou logo o Stephan.
- Sim, bem foi ele que me pediu em namoro e foi em San Siro. Foi muito original, não é? Foi no fim de um jogo e o pedido de namoro veio acompanhado com flores.
- Romântico? – perguntou a Ruth.
- Muito! – respondi, sorrindo depois para o Stephan.




- Tens quase tanto estilo como o teu pai, aniversariante! – atirou o Mattia assim que se sentou junto de mim e da Cristina.
- Tu não insultas o meu filho! – barafustei – e ele agradece, já está um homem tem 1 ano – o Matteo estava irrequieto e só queria ser colocado no chão e andar, já que agora não quer fazer outra coisa.
- Dizer que ele tem quase tanto estilo como Stephan é insultá-lo?
- É! Porque o Stephan não tem estilo nenhum!
Tanto o Mattia como a Cristina se riram. O Matteo deu um dos seus gritos nada bons de se ouviram e fez pressão para ir para o chão.
- Queres que eu ande com ele? – perguntou-me o Mattia.
- Sim mas tem cuidado, ele gosta de caminhar muito depressa mas se o largares ele ainda não se segura muito bem por isso cuidado!
- Sim mãe galinha eu vou ter muito cuidado com ele – assegurou-me e vi-o a afastar-se.
Ao Matteo pouco lhe importava com quem andava, o que interessava mesmo era andar com os pés no chão.
- Rita, diz-me que o artigo anónimo da primeira edição da tua revista é teu – disse a Cristina olhando-me.
- É mas…é assim tão óbvio? – perguntei assustada.
- Não, quer dizer para quem te conhece é mas como a imprensa não sabe da existência do Matteo não é óbvio para eles.
Encostei-me na bancada, o jogo tinha acabado de começar. A Cristina pegou na sua mala e retirou de lá a primeira edição da revista que reconheci imediatamente.
- Adoro esta parte – dobrou a revista e olhou-me para depois voltar os seus olhos para aquela página - Não tive enjoos, não senti dores, não vi a minha barriga crescer de dia para dia, não fiz ecografias porque na verdade…eu não tive a sorte de o ter no meu ventre. Não tive a sorte de o gerar mas tive a alegria de o criar a partir dos 7 meses – olhou para mim e sorriu para depois continuar – Passei noites sem dormir, desesperei com choros que pareciam não ter fim e temi quando o vi gatinhar pela primeira vez – vez uma pausa – Descobri uma forma diferente de amar, a minha vida passou a ter outro sentido. Senti-me mãe assim que o vi nos meus braços e percebi que não tinha mais ninguém a não sermos «nós» - virou a página e sorriu-me – Não residiu no meu ventre, mas invadiu o meu coração. Não é fruto da minha sucessão mas molda-se segundo o meu caracter. Se não nasceu de mim, certamente nasceu para mim…
- É meu filho, gerado no meu coração – completei.
- Sim! Está tão sentido, Rita.
- Obrigada, a sério – agradeci vendo o Mattia a chegar com o Matteo, caminhava com ele e agarrava-lhe nas mãos.
- Chegamos e fizemos novos amigos!
- Amigos? – perguntei desconfiada.
- Vá, amigas – disse levando-me a rir juntamente com a Cristina – não foi Matteo?
Fez um pequeno «é» e elevou as mãos todo feliz. Claro, já tinha caminhado.
Coloquei-o no meu colo e vimos o jogo atentamente. Ia mexendo as pernas e só quando lhe dei a chupeta é que conseguiu acalmar mais um bocadinho.
O jogo foi decorrendo. AC Milan vs Juventus. O Stephan saiu na primeira parte o que deu para ter um momento engraçado.
- Quem foi embora? – perguntei ao Matteo que se mantinha em pé à minha frente, agarrado às minhas pernas.
- Papá – baixou as mãos em sinal de tristeza levando-nos a rir. às vezes que tinha treinado isto com ele, tinha dado em algo.
- Quem ficou? – perguntei.
- Mamã! – falou alto e elevou as mãos levando mais uma vez a que houvesse risos – é! – o Matteo elevou os braços o que nos fez olhar para ele, a Juventus tinha acabado de marcar e com todo o barulho que se ouviu o menino reagiu.
- Não, não! – o Mattia falava para ele e falava-lhe sério – não é para festejar. Só festejamos os nossos golos.
- É! – voltou a dizer e a elevar os braços.
- O teu miúdo está mal ensinado, Rita – disse o Matteo – Milan! É Milan, Matteo!
- Mamã – disse pedindo para subir para o meu colo.
- A mamã não é tão chata, pois não?
Agarrou-se a mim e pela sua cara, estava cheio de sono.
Conseguiu aguentar o jogo todo mas a festa em seguida ia ser mais complicado.


Por volta das dez estávamos em casa, tinha deixado tudo preparado para a festa de aniversário dele. Vinte de setembro, 1 ano de vida e já me deu tantas alegrias só nos 5 meses que passou comigo até agora.
- E… - estava sentada no chão com o Matteo no meio das minhas pernas – outra bola! Com tantas bolas de futebol que já recebeste hoje mais as que o teu pai tem ali já podemos encher a piscina de bolas!
- Não sejas má, Rita – disse-me o Riccardo – o miúdo vai ser como o pai! Por isso precisa de bolas de futebol para começar a treinar!
- Não queremos mais bolas! Rejeito as bolas que ainda houverem para ser oferecidas ao meu filho!
Coloquei-me de pé e peguei nas mãos do Matteo e caminhámos os dois pela sala em direção ao Stephan. Peguei nele ao colo e juntei-me ao Stephan que me deu um beijo demorado que o Matteo não aprovou começando a mexer os braços e a dizer «mamã».
Ouvimos o barulho da campainha que nos despertou, olhei para o Stephan e ele para mim. Não faltava ninguém mas mesmo assim tirei as dúvidas.
- Falta alguém, Stephan?
- Que eu saiba não. Já passou uma hora desde o início da festa.
Agarrei o Matteo contra mim, não havia nada que eu mais temesse que o reaparecimento da mãe biológica dele, não agora, não nunca.
- Rita! – o Stephan agarrou a minha mão e puxou-me para junto dele – não tenhas medo, eu estou aqui. Provavelmente até é outra pessoa, o Balotelli se calhar veio fazer-nos uma surpresa!
Não, nada do que ele me pudesse dizer me convencia. Avançou uns passos em direção à porta e coloquei a cabeça do Matteo junto ao meu peito.
O Stephan caminhou em direção a porta e olhava para mim. Olhou uma vez mais e colocou depois a mão na fechadura.
- Vais ser sempre meu, meu príncipe, aconteça o que acontecer – sussurrei fechando depois os olhos até ouvir a porta a abrir. 



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Boa noite ou bom dia, eis a questão!
Cheguei! Quase dois meses depois mas cheguei e com um capítulo enorme para o que estou habituada a dar-vos. É para compensar este tempo todo sem publicar.
Espero que gostem, que vos agrade e aguardo as vossas opiniões!
Não o reli ao pormenor e por isso peço desculpa pelos erros que possam haver. 
Beijinhos e bom resto de fim-de-semana,
Mahina