domingo, 6 de março de 2016

45º Capítulo - «Eu teria morrido por ela»

- Chegámos! – assim que ouvi a voz do Stephan coloquei o computador de lado e o meu olhar voou até à porta de entrada. Entrou com o Matteo pela mão. Assim que lhe sorri correu até aos meus braços.
- Olá meu amor – acolhi-o bem perto do meu peito e depositei imensos beijos pelas suas bochechas. Larguei-o assim que percebi que tanto carinho já estava a ser um massacre para ele. Correu em direção ao quarto deixando a sua mochila aos meus pés.
- Está tudo bem? – o Stephan sentou-se ao meu lado beijando-me calmamente. Acenei com a cabeça e olhei-o atenta – hoje eu faço o jantar!
- Olha que bom! – coloquei as minhas pernas sobre as suas e aproximei-me o mais possível dele. Coloquei as minhas duas mãos no seu rosto e percorri cada traço como da primeira vez – sinto-me…estranha.
- Estranha mal-humorada, estranha de TPM, estranha grávida ou estranha carente?
Acabei por gargalhar perante todas aquelas hipóteses que ele colocava.
- Estranha carente sem dúvida.
- Mas isso resolve-se, sabes? – fez com que me inclinasse no sofá e colocou o seu corpo por cima do meu – não te rias – repreendeu perante o meu riso quase silencioso e envergonhado – já reparaste que emagreci? – questionou.
- Não – abanei a cabeça rindo-me. Aproximou a sua boca do meu pescoço mordendo-me devagar fazendo-me cócegas – continuas pesado caro parceiro!
- Não me digas uma coisa dessas! Eu tenho-me esmerado! Até tenho ficado no ginásio depois do treino.
- Não se nota nada! – passei as minhas mãos pelo seu corpo – até acho que estás a ficar aqui com um pneu.
- Pneu? Está doida! – saiu de cima de mim. Agarrei-lhe um dos braços fazendo-o olhar para mim – não venhas cá pedir beijos, disseste que eu tinha um pneu!
- Mas é um pneu bonito! – riu-se perante a minha afirmação e baixou-se juntando os seus lábios com os meus novamente.
- Vou preparar o jantar, vens comigo?
- Não disseste que fazias o jantar sozinho?
- Não! Eu disse apenas que fazia o jantar, não disse que o fazia sozinho.
- Certo! Vamos lá então, bebé! – levantámo-nos os dois e seguimos para a cozinha – vai só ver do Matteo por favor – pedi – tenho sempre medo que ele faça asneiras ou se aleije.
O Stephan saiu de junto de mim e comecei a encaminhar-me para a bancada da cozinha. Provavelmente acabaria por fazer o jantar mas decidi arriscar desta vez e esperar por ele.
- Então? – perguntou perante a minha postura.
- Então estou à tua espera. O que é que queres fazer para o jantar?
- Não sei – abriu um dos armários da cozinha.
- Sabes que…esse é o armário das conservas… – fechou a porta do armário e olhou-me com o seu sorriso irónico – vá lá, Stephan! Estou à espera da tua imaginação.
- Massa! Com…carne!
- Se tu dissesses com peixe é que eu me admirava!
- Como correu com a psicóloga? – aproximou-se de mim e posiciono as suas mãos no fundo das minhas costas.
- Bem, hoje até falei da Ellie…mas de forma diferente.
- Diferente? – largou-me e colocou desta vez uma das suas mãos sobre o meu lado direito da cara.
- Sim. Eu falei-lhe sobre a escolha que fizemos em não contar a ninguém do nascimento da nossa filha. Falei-lhe sobre as duas semanas em que a conhecemos e… - levei as minhas mãos à cara e respirei fundo – é normal que passados estes 9 meses, eu ainda sinta um vazio tão grande dentro de mim? – abanei a cabeça – ela agora podia ter nove meses, podíamos ser eu, tu, o Matteo e a Ellie mas não…e a culpa é minha! – a revolta que sentia dentro de mim ainda permanecia. O Stephan agarrou-me, encostei a minha cabeça ao seu peito e tentei acalmar-me mas era impossível – a culpa é toda minha! Porquê? – atirei sem moderar o tom de voz.
- Não digas isso, a culpa não é tua – fazia algumas carícias no meu cabelo.
- Tu sabes que é!
- Não é – afastou-se um pouco de mim e pousou as suas mãos no meu rosto – a culpa não é tua, Rita. Para de te culpar.
- É impossível não me culpar. Eu tive a minha filha a crescer dentro de mim e depois só a tive nos meus braços uma vez, uma única vez. Eu teria morrido por ela. Ela merecia viver – limpei as lágrimas que me caiam no rosto e olhei-o – nós tínhamos um plano, íamos ser felizes, íamos finalmente ter um filho nosso e fazê-lo feliz tal como fizemos o Matteo.
- Mas nem tudo é como nós queremos – deu uns passos para trás e encostou-se à bancada – as coisas acontecem muitas vezes sem sabermos como nem porquê. Tivemos o azar de perder a Ellie mas nisto tivemos a sorte de continuarmos juntos e termos o Matteo na nossa vida. Eu sei que tem sido difícil para ti, para mim também, acredita. Eu também me lembro dela todos os dias quando acordo, e imagino como poderia ser a nossa vida se a Ellie continuasse connosco…mas infelizmente ela já não está nas nossas vidas e o máximo que podemos fazer é aprender a viver com isso.
- Eu…eu não sei – puxei uma das cadeiras e sentei-me a olhá-lo – desde que ela foi que tudo mudou. Até a minha forma de ver as coisas à minha volta mudou. Mudarmo-nos para aqui foi sem dúvida o melhor que fizemos – cruzei as pernas. Sentia-me mais calma – não sei quanto mais tempo suportaria estar naquela casa em Milão, Stephan. O quarto dela…todos os dias eu entrava no quarto dela e me sentia desfeita. Ainda hoje me sinto desfeita, incompleta, como se…me tivessem tirado um órgão vital.
- Eu amo-te – avançou na minha direção e com cuidado sentou-se sobre as minhas pernas – eu amo-te e infelizmente não te posso tirar essa dor mas posso fazer o que estiver ao meu alcance para a atenuar. Eu tenho tanto orgulho em ti.
- Eu também tenho orgulho em ti – coloquei as minhas mãos no seu rosto – és incrível fazes com que tudo pareça mais simples.
- Rita…eu tenho tentado não tocar neste assunto mas…já pensaste na hipótese de engravidar outra vez?
- Sim.
- E…
- Tenho medo – admiti – é normal, não é?
- É completamente compreensível.
- Tu queres…?
- Eu queria – garantiu – mas compreendo se quiseres esperar. Somos novos. Tu tens vinte anos e é completamente normal que não te vejas com um filho por agora, principalmente depois de tudo o que aconteceu.
- Eu vou pensar – dei-lhe um pequeno beijo no nariz e olhei-o nos olhos – tenho a certeza que a Ellie queria que seguíssemos com a nossa vida em frente.
- E eu tenho a certeza que, onde quer que ela esteja, a nossa filha está muito orgulhosa da mãe, e de todo o caminho que percorreu, desde o dia que ela foi embora até ao dia de hoje.


- Eu mamã! – correu para o elevador, colocou-se em bicos de pés e com todo o esforço conseguiu carregar no botão.
- Espera um bocadinho, deixa-me ver o correio – abri pequena caixa do correio e retirei de lá duas cartas. Acabei por não ligar muito aos remetentes – dá a mão – o elevador já estava aberto, agarrou a minha mão e cantarolava alguma coisa indecifrável para mim.
- Mamã?
- Sim – o elevador abriu e acabámos por sair e ir em direção ao apartamento – o que foi? – abri a porta e ele entrou. Acendi as luzes e acabei por me sentar no sofá enquanto o via desaparecer para o quarto.
Peguei novamente nas cartas e petrifiquei a olhar para uma delas. Era…da minha mãe. Abri o envelope o mais depressa que consegui, estava curiosa por saber o que continha aquele envelope.
- Mamã – pousei rapidamente a carta de lado e olhei-o – toma – entregou-me um desenho para a mão – mamã – disse apontando para um rabisco que era eu – o papa – apontou para o outro rabisco ao meu lado – eu – apontou para um desenho mais pequeno.
- Que lindo!
- Aqui o ão ão – explicou apontando para um dos cantos da folha – onde está?
- O Dacky? – perguntei. Acenou com a cabeça e ficou muito atento esperando a minha explicação – está na outra casa. Ficou com o tio e a tia.
- A ti Bi? – perguntou, referindo-se à Gabriela. Era complicado ainda para ele dizer Salvador por isso ficava-se mesmo pela tia Bi.
- Sim. Depois nós vamos lá – uma mentirinha não fazia mal – queres ver os bonecos? – acenou com a cabeça e ajeitei-o no sofá colocando-o ao meu lado – a mãe liga a televisão – liguei a televisão e peguei desta vez no envelope retirando de lá a folha.

Rita,
Não consigo, por mais que tente compreender o porquê de te afastares de nós…eu simplesmente não consigo.
Tu perdeste um filho. Não foi um boneco, um telemóvel ou uma carteira. Foi um filho. Tu precisas de ajuda, tu precisas de nós.
Já estou para te ligar há uns dias mas simplesmente não consigo e por isso escrevo-te esta carta e peço-te que não te isoles e pares com essa birra de nos deixares de lado.
O teu pai precisa de ti. O Afonso precisa de ti. Porque insistes em ficar distante?
Tens sido acompanhada? Tu precisas de ser acompanha e eu já te disse isso. Tens que viver o teu luto e seguir em frente. E se não o consegues fazer…talvez te falte algo. Que tal a tua família?
Agora já nem com o Salvador falas? Liguei-lhe ontem e ele disse-me que das últimas vezes que te tentou ligar não atendeste.
O que te resta? O Stephan? O Matteo? Um namorado e um filho que não é teu.
Tenho pouco mais para te dizer. Precisas de refletir sobre a tua vida e sobre tudo o que se passou. Será que vale a pena continuares aí? Quem te garante que de um momento para o outro as coisas entre ti e o Stephan não acabem? E depois? O que vai acontecer?
A escolha é tua.
Margarida

Pousei a carta ao meu lado e encostei-me depois no sofá olhando para a televisão e os desenhos animados que estavam a dar.
Eu já tinha feito a minha escolha. Não ser uma mãe horrível como a minha – era a minha escolha.


- Amendoins a esta hora? – o Stephan sentou-se ao meu lado e olhou-me atento – já deitei o Matteo – informou com um sorriso.
- Obrigada – agradeci.
- E a razão dos amendoins é… - deixei de olhar para a televisão e olhei para ele – ambos sabemos que só comes amendoins quando não estás muito bem – levantei-me e retirei a carta dobrada que tinha no bolso de trás das calças, entreguei-lha e voltei a sentar-me – hum, já estou a entender.
- Lê, vais adorar! – percebeu que estava a ser irónica e apressou-se a ler aquela folha.
Durante aquele tempo em que ele lia a carta, passei as minhas mãos pela minha barriga. Parecia tudo ainda tão real e tão recente.

- Sentes algum movimento? – o Stephan percorreu a minha barriga descoberta com os seus dedos.
- Não.
- Porque é que agora não te mexes, bebé? – colocou a sua cabeça na minha barriga – estou a sentir alguma coisa.
- Não estás nada, isso é imaginação tua – afastei-o da minha barriga e sentou-se direito ao meu lado – espera um bocadinho, estás a ser chato! Além disso estou com frio – peguei na minha manta e coloquei-a em cima da minha barriga.
- Rita, faz lá com que ela se mexa…por favor – comecei a rir-me e ele olhou-me muito espantado – o que foi?
- Não sou eu que mando, meu amor. Ela só se mexe se quiser. Fala com ela vá – levou as mãos à minha barriga rapidamente – mas não me tires a manta, está frio!
- Vou buscar comida, isto vai demorar – levantou-se do sofá e começou a afastar-se até que…
- Stephan! Anda rápido! – voltou para trás, retirei a manta, peguei na sua mão e posicionei-a no lado direito da minha barriga - sentes?
- Isto é tão…estranho e…maravilhoso! – aproximou os seus lábios da minha barriga beijando-a – vai ser jogadora de futebol.
- Na, na, não te ponhas com ideias! É normal os bebés darem pontapés. Não é agora por ela dar um pontapé que vai ser a vencedora da bola de ouro daqui a 25 anos!
- Acalma-te lá mamã – passou novamente os seus dedos pela minha barriga devagar e…outro pontapé – olha! Viste?
- Ver não vi mas…senti – ri-me sozinha e passei a minha mão pelo seu rosto acariciando-lhe a face – agora reza para ela não fazer estas acrobacias de noite!

- Fofinha? – chamou fazendo-me olhá-lo.
- Desculpa, estava noutro mundo – abanei a cabeça – que tal? – perguntei referindo-me à cara – o que tens a dizer?
- Não sei – entregou-me a folha que eu dobrei – eu não sei o que te dizer neste momento.
- Bem – aproximei-me dele e pousei a minha cabeça sobre o seu ombro – essa carta é uma confusão. Uma mistura da minha mãe com a psicóloga Margarida. Sempre odiei quando ela mistura a profissão dela com a outra profissão dela a tempo inteiro que é ser mãe.
- Ela adora-te.
- Cada vez acredito menos nisso – respirei fundo e senti os braços do Stephan a envolver-me – mas tudo bem. Ela trata-me como se eu ainda fosse uma criança, e insinua, ainda que indiretamente, que eu sou uma fraca porque me afastei deles e decidi passar por isto sozinha. Ela esquecesse é que foi ela, o meu pai e o meu irmão quem me esconderam durante meses que ele tinha um cancro – senti a sua mão no meu cabelo a fazer-me breves carícias que me iam acalmando – e fraca foi ela que depois de saber tudo o que o meu pai tinha ainda consentiu. Ela podia tê-lo apoiado mas não…ela deixou-o ir, deixou-o passar por tudo sozinho. Que esposa é ela, mesmo?- deu-me um leve beijo na testa e larguei-me dos braços dele, levantei-me.
- Vou ver o Matteo – informei, recebendo em troca um sorriso seu.
Caminhei calmamente até chegar ao seu quarto. Entrei e surpreendi-me ao não o ver. Acabei por recuar e abrir a porta do nosso quarto. O Stephan tinha-o deitado na nossa cama, para variar! Avancei um pouco, sentei-me ao seu lado e acabei por puxar a manta um pouco para cima.
Agarrado ao pu, a dormir serenamente. Aquela imagem deixava-me tranquila de verdade. Agarrei o meu telemóvel e tirei uma fotografia, partilhando-a em seguida.

«Se não nasceu de mim, certamente nasceu para mim»


Olá! Estou aqui, uns meses depois!
Espero que gostem!
Bejinhos e boa semana 
Mahina 

3 comentários:

  1. Como já tinha saudades desta história :) Agora é ver se vem um mini El que bem merecem devido ao que já passaram... Beijinho e continua**

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  2. Adoro esta história :)
    Quando publicas outro capitulo ?
    bjs

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